Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Abril 17th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Um chorrilho (quase) total de disparates

Bernardo de Brito e Cunha

JÁ DISSE, na crónica anterior, que a programação televisiva anda do piorio. É a silly season da televisão levada ao seu expoente mais alto. Já todos sabemos que ceder ao facilitismo é sempre um caminho apetecível (e, perdoem a redundância, fácil) mas julgo que até isso deve ter os seus limites: no campo da decência, do bom gosto e da noção do ridículo. Mas dois canais, pelo menos, e um deles com mais responsabilidades que o outro, parece que fizeram disso tábua rasa, arranjaram dois projectos inenarráveis e meteram o prego a fundo – sem, ao que parece, medirem sequer as consequências. E a qualidade desses dois produtos não pode ser justificada apenas com o Verão que atravessamos. Ora vamos lá ver.

PARA COMEÇAR, temos o caso de Vasco Palmeirim. Jovem que se fez na rádio, onde se notabilizou a fazer letras para músicas conhecidas e que tinham a ver principalmente com a nossa (tão farta!) actualidade política. Ficaram na nossa memória as canções que fez para o ex-ministro Relvas e para o ex-demissionário Paulo Portas. Daí passou rapidamente para o papel de jurado no programa apresentado por Catarina Furtado, “Feitos ao Bife”. Algum tempo depois, sem que se percebesse bem porquê, Catarina desapareceu de cena e Vasco Palmeirim tomou o seu lugar. Até aqui tudo bem – excepto o desaparecimento súbito de Catarina Furtado.

MAS AGORA, nas tardes de sábado, a RTP decidiu que tinha de dar que fazer a Palmeirim e inventou uma coisa que dá pelo nome de “Sabe ou não Sabe”. A ideia é percorrer localidades à beira-mar, abordar um cidadão anónimo e fazer-lhe uma pergunta. O cidadão em causa não tem de responder: tem de escolher um outro cidadão que por ali passe e que responda por ele… Daqui resultam algumas coisas deprimentes, como sejam a constatação do fraco nível da cultura geral dos portugueses e as piadinhas mais ou menos constantes e sem graça. O próprio Palmeirim deve ter-se apercebido de que o programa era uma estucha sem nome e, num dos programas, lá foi escolher, para concorrente, uma estudante universitária de encher o olho e muito despida de roupa… Tirando isso, os 1500 euros oferecidos não se comparam aos prémios dos programas da manhã e da tarde dos canais da concorrência, já para não referir que este formato tem muito pouco a ver com serviço público, coisa com que a RTP se deveria preocupar.

QUE SE PODERÁ dizer, então, com o novo programa de apanhados (mais um) da TVI, “Gang dos Cotas”? Em primeiro lugar, talvez, que a palavra gangue tem um grafismo nacionalizado, este que acabo de escrever. Depois, é uma queda livre no campo da boçalidade e, o que é pior, na profunda falta de graça. É sabido como uma pessoa que cai na calçada nos provoca o riso: aqui é pior, porque ninguém cai na calçada – e nada nos provoca o riso. Que se pode dizer de um bando de velhos que prega partidas aos passantes da rua? Nada. Porque as partidas passam por apalpar alguns rabos e fugir na cadeira de rodas. Mas isto tem graça? Não tem, roça mesmo (roça, só?) o ordinário. E acontecem duas coisas estranhas, com este programa diário. A primeira é que a TVI faz questão de mostrar isto de segunda a sexta, depois do “Jornal das 8” – talvez para despachar os episódios todos enquanto (alguns) portugueses estão de férias. O problema é que os portugueses que estão de férias são poucos: e daí advém que uma larga percentagem veja o programa e, espante-se!, parece que gostam. Porque, não poucas vezes, o programa ocupa o segundo lugar dos mais vistos. O que diz muito do público que o vê, naturalmente e, claro, não abona muito a favor desse milhão de pessoas que parece seguir o programa.

É SEMPRE INTERESSANTE o final da novela “Páginas da Vida”, na SIC. Porque os momentos finais, digamos extra, não têm a ver com a novela mas sim com casos reais, com páginas reais da vida. E surgem pessoas que dão o seu próprio testemunho, uma página da sua própria vida. Como foi assumir a homossexualidade, ter sido mãe solteira, ter vencido o cancro, sei lá, todas as coisas difíceis da vida. E ganha alguma força o termos, no final, aqueles momentos que se percebem sérios, por oposição à trama da própria novela – que pode, ou não, passar por aí.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Não tinha grande paixão por esse jogo baixo que dá pelo nome de “Big Brother”. Assisti à estreia desta edição, domingo passado, por dever de ofício – e gostei ainda menos. Liquidemos rapidamente o papel de Teresa Guilherme: não sei se a apresentadora ainda está afectada pelo ramerrão das férias, mas a verdade é que não foi a mesma. A lição estava mal estudada, o improviso foi a sua maior arma mas a verdade é que nem sempre jogou a seu favor. Alturas houve, mesmo, em que parecia completamente perdida. Esperava-se mais de uma mulher com a sua experiência nestas andanças.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3993 de 6 de Setembro de 2013

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