Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Maio 5th 2026

O 11 DE SETEMBRO DE 1973 E O VALOR DA LUTA PELA DEMOCRACIA


José Jorge Letria

O 11 de Setembro de 2001, fim trágico das Torres Gémeas de Nova York e de cerca de 3000 mil pessoas hegemonizou a memória universal desse dia que mudou, em larga medida, a história do mundo. Mas houve antes um outro 11 de Setembro, no Chile de Salvador Allende e da Unidade Portugal a que sangrento golpe militar de extrema-direita liderado por Augusto Pinochet pôr termo. Corria o ano de 1973.
Quem viveu essa data em Portugal nunca a esqueceu ou esquecerá, pois representou a queda de um governo com inquestionável legitimidade democrática a que os Estados Unidos haviam lavrado sentença de morte, por temerem que os seus interesses económicos e geo-estratégicos no Chile fossem irremediavelmente postos em causa.
Jornalista do “República”, em Lisboa, acompanhei a par e passo a evolução do golpe, partilhando a tristeza e a revolta com os meus camaradas de redacção, de Álvaro Guerra a Mário Mesquita, de Frernando Assis Pacheco a Miguel Serrano e a Vítor Direito. Foram horas e dias de sofrimento também para quem vivia em ditadura, num Portugal de coração aberto ao desejo de mudança.
Sei hoje que o golpe que derrubou a Unidade Popular de Salvador Allende, que entretanto pôs termo à vida no Palácio de la Moneda, com a coragem de quem não aceita a rendição, que o desfecho trágico no Chile foi determinante para que os capitães de Abril decidissem levar por diante o projecto de derrubar o regime de Salazar-Caetano. Faltavam poucos meses para que isso acontecesse.
Aqui, como um pouco mais tarde me disse um oficial de referência do MFA, “militares hão-de sair à rua para defender o povo e a liberdade e não para os liquidar”. A assim aconteceu, de facto. A morte do Chile Popular ocorreu há 40 anos e o 25 de Abril completará quatro décadas de vida e memória em 2014, convocando-nos para uma celebração popular que não pode ser passadista e deve estar virada para o futuro e para a construção de um novo ciclo que honre o melhor que o acontecimento nos trouxe.
Portugal foi, logo após o 25 de Abril, porto seguro para muitos exilados chilenos. Alguns por cá ficaram. A esmagadora maioria regressou a uma pátria que hoje é livre e democrática e onde os culpados de crimes contra a humanidade foram em geral julgados e condenados. Em Portugal não houve coragem para se ir tão longe, e essa história ainda está por contar com o detalhe que merece, porque o facto envergonha a democracia e quem combateu por ela.
Em 11 de Setembro de 1973 caiu por terra o Chile Portugal, foi assassinado o cantor-autor Victor Jara e dias mais tarde morreu de tristeza, doença e revolta o grande poeta Pablo Neruda. O Portugal democrático não esquece essa data e deve ficar atento, porque processos de ruptura e de destruição da democracia, neste mundo incerto e inseguro, não estão definitivamente arredados do horizonte. A ambição, o egoísmo, a sofreguidão do lucro e a falta de solidariedade e humanidade podem sempre reabrir portas aos fantasmas do terror.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3995 de 20 de Setembro de 2013.

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