Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Junho 11th 2026

QUE NINGUÉM SE ILUDA, O PIOR AINDA NÃO PASSOU

José Jorge Letria

O recomeço do ano político activo, tradicionalmente conhecido como “rentrée” foi sofrível para não lhe chamar somente medíocre. Poucas ou nenhumas ideias, muita chicana política, muita fulanização dos comentários e críticas e um travo amargo de resignação que resulta de dois factores centrais: a pausa estival e o facto de a remodelação governamental ter conso¬lidado a ideia de que o governo vai mesmo concluir a sua legislatura. A própria intervenção do secretário-geral do PS contribuiu para reforçar essa ideia.
O pior é que muita gente que esteve há poucos meses nas ruas a reclamar a substituição deste governo e o regresso às urnas para a escolha de novos protagonistas e de novas políticas, resvalou já para a perigosa ilusão de que tudo está a melhorar, de que as contas públicas estão quase controladas, de que que agora há quem seja capaz de bater o pé à troika e de que o pior já passou. Em bom e prosaico português apetece dizer aos que cruzaram os braços: esperem pela pancada !
É verdade que o ano turístico não tem corrido mal, que muitos portugueses trocaram Maldivas e Cancuns pelo nosso Algarve e que até vieram alguns “oscares” do turismo internacional confirmar a excelência da nossa oferta neste domínio. Mas será, mesmo com um ministro da Economia politicamente mais experiente e credível, que a corda em volta da garganta nacional aliviou a sua sufocante pressão, ou estaremos apenas anestesiados pelo calor estival, pela tragédia dos fogos florestais e pelo efeito da propaganda que converte a mentira em frágil ilusão de verdade?
Entretanto, começam os putativos candidatos a candidatos a Belém a pôr-se em biscos de pés, para tentarem avaliar as reacções do seu potencial eleitorado. Deixando de lado quem faz semanalmente campanha no principal serviço informativo de um canal privado de televisão, há intelectuais independentes, ex-dirigentes disto e daquilo que largam a lebre para tentarem perceber que galgos mediáticos, económicos, políticos e sociais lhe correm no encalço. Em alguns casos, o espectáculo é triste, sobretudo quando proclamam que uma candi¬datura presidencial não está nem virá a estar nos seus horizontes e que é mesmo coisa que nunca lhes passou pela cabeça. Se assim é, como se justifica que tenham surgido nas agendas mediáticas estas providenciais entrevistas de pré-lançamento ?
E assim vai a política portuguesa, sem brilho, vazia de ideias, com a política e os políticos separados por um abismo fundo do povo que ainda vota e com a crise a continuar a fazer os seus estragos e vítimas, enquanto dos nossos bolsos saem regularmente as verbas necessárias para tapar o “buraco” do BPN e outros que tais, sem que os responsáveis sejam convenientemente julgados e desejavelmente condenados.
O pior de uma crise como esta, que é estrutural e que, por isso mesmo, tem mais a ver com a falta de valores, de princípios e de regras do que com a dívida soberana, é quando, habituados a conviver com ela e impotentes quanto à forma de a combater, somos levados a crer que o pior já passou, que estamos todos no mesmo barco, que até podemos ser amigos se não nos atacarmos muito e que, afinal, somos um país de brandos costumes onde tudo acaba por se resolver com boa vontade, com a tal “tranquilidade” que celebrizou o seleccionador nacional de futebol e, já agora, para os crentes, também com a ajuda de Deus. A realidade, infelizmente, é bem diferente, muito mais dramática e cheia de arestas cortantes e quem se resignou ou está em vias de o fazer, poderá ter, em 2014, momentos de ainda maior tristeza, privação e amargura, porque não nos deixou neste estado está exactamente onde estava, com o mesmo programa ideológico e com a mesma intenção de continuar a fazer da austeridade um constante golpe de chicote para vergastar os que menos têm, a começar pelas centenas de milhares de desem¬pregados e a acabar nos pensionistas e reformados. Que volte, pois, acordar quem tem vontade e energia para o fazer e não faça o jogo de quem tem em mente um Portugal que é a negação do que foi sonhado há 40 anos, porque é bom não esquecer que o 25 de Abril completa quatro décadas daqui a alguns meses.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3994 de 13 de Setembro de 2013

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