Programas que não deixam marca
Bernardo de Brito e Cunha
HÁ ALTURAS em que não e possível ver a televisão que se faz e lança para o ar neste país: e é nesta altura que eu lamento os infelizes possuidores de TDT, presos àqueles quatro canais, que agora parece que passaram a ser cinco, com as imagens sempre edificantes do Canal Parlamento. Penoso, verdadeiramente penoso, procurar uma coisa decente que se possa olhar sem um peso na alma, um peso que sabemos não ser nosso mas apenas consequência de mãos inaptas ou, pior ainda, propositadamente perversas. Que vemos nas programações? Telenovelas, imensas. Telejornais inconsequentes, vários ao dia. Big Brother, ou Casa dos Segredos, em doses muito superiores às prescritas na bula. Grandes reportagens anunciadas que não são transmitidas, outras tantas. E neste ramerrão cá vamos andando, sem que tenhamos verdadeiramente o que ver. E que deixe marca.
ESPANTA-ME, neste panorama que descrevo pela rama, que ainda haja televisões que se orgulhem, com esta programação, de ser líderes de audiência. Com essa programação é fácil, queria era vê-las a conseguir os mesmos resultados com os programas da RTP2! Ainda no último domingo, numa intervenção no programa “Trio d’Ataque”, na RTP Informação, João Gobern dizia que “este programa tem uma credibilidade que a concorrência não tem”. E após uma brevíssima pausa reconsiderou e corrigiu: “Bom, dizer que a Casa dos Segredos e outras coisas que por aí andam é ‘concorrência’ é estar a aumentar-lhes muito a qualidade…” Não garanto que as palavras tenham sido estas, ipsis verbis, mas a ideia era exactamente esta. E ele tinha razão.
NOS NÚMEROS das audiências que, logo de manhãzinha, me chegam ao smartphone via uma aplicação da Marktest, os números nem sempre batem certos com os tais valores de que as televisões se vangloriam: é verdade que elas se regem pelos números da medidora oficial e isso faz com que os resultados sejam diferentes. Mas como a GfK já foi altamente contestada (nomeadamente pela TVI, que agora se agarra a eles como gato a bofe…) continuo a aceitar como bons aqueles com que a Marktest me vai brindando. E através deles vou percebendo que as “grandes apostas” dos canais já não são o que eram. A estreia de “Casa dos Segredos” ganhou aquela noite de domingo mas, depois, foi-se abaixo. Tempos houve em que as terças-feiras, dias de nomeações, tinham invariavelmente o primeiro lugar do top 5: na última sessão de nomeações, terça-feira, o programa não passou do terceiro lugar, tendo sido ultrapassado por duas novelas. É verdade que a TVI emitiu as nomeações depois de “Belmonte” e só se poderia verificar a “popularidade” do programa se estivesse em confronto directo com a novela da SIC.
ESTOU EM CRER que esta ordenação da programação da TVI se deve ao facto de “Belmonte”, desde a sua recente estreia, ter tido resultados ligeiramente melhores do que a novela da SIC – mas coisas que apenas andam por décimas de casa percentual e, portanto, talvez tenha querido “embalar” com a novela para depois emitir as nomeações. Na última terça-feira, no entanto, a novela da SIC, “Sol de Inverno”, bateu “Belmonte” e as nomeações da casa. Houve uma característica nas novelas da TVI dos últimos tempos que sempre me pareceu curiosa: quase todas tinham nome de canção nacional, ou de um verso tirado dela. Acontece que a SIC fez a mesma coisa com “Sol de Inverno” e confesso que não me lembro que o tenha feito antes: será que esse pequeno “truque” é, de facto, uma componente importante do sucesso?
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«[…] uma notícia já com uns dias, mais exactamente daquela quarta-feira em que o Porto jogou com o Real Madrid. Perdeu, o Porto, mas não é isso que vem ao caso. O que para aqui nos interessa é uma outra coisa. Como já diversas vezes o referi aqui – até em relação a um jogo da selecção portuguesa de sub qualquer coisa – o desporto não está propriamente uma coisa de cavalheiros. Basta ver as faltas, os verdadeiros atentados à integridade física de quem está em campo para se chegar a essa conclusão. E é exactamente por se viver esse clima que, nesse jogo, houve um pormenor interessantíssimo. Roberto Carlos recebe a bola e dispara um violento remate à baliza de Vítor Baía. O guarda-redes do Porto defendeu aquele tiro e com mérito. O interessante da história não é exactamente isto, porque em matéria de futebol haver quem remata e quem defenda estamos nós fartos de ver. O interessante é que Roberto Carlos sabia que tinha sido um grande remate e, para um tiro desses, só pode haver uma grande defesa: razão pela qual depois de Baía ter defendido a bola, pudemos assistir a um Roberto Carlos que aplaudia o guarda-redes que lhe defendera o tiraço. Remates daqueles ainda se vão vendo: agora o resto, o respeito pelos companheiros de profissão, isso é que é muitíssimo mais raro. E era bom que os tais sub qualquer coisa tivessem visto isso: o remate e a defesa, para aprenderem, e o resto – para poderem crescer mais homenzinhos.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3998 de 11 de Outubro de 2013

