E se, para variar, fôssemos honestos?
Bernardo de Brito e Cunha
FALEMOS de trivialidades e, já que as coisas andam sempre ligadas, de pessoas triviais. Falemos, para começar, de futebol. Eu sei, e julgo que já o escrevi mais do que uma vez, que a harmonização da selecção nacional não é uma coisa fácil pela razão simples de que os jogadores nunca se encontram. Os que jogam cá ainda se vão encontrando – mas como adversários, o que não ajuda a que consigam jogar como equipa. Depois temos os outros, os que jogam no estrangeiro: esses então nem com os outros se encontram, a não ser em ocasiões muito especiais e raras. Não sei como se faz nos outros países com as selecções nacionais, possivelmente será tale qualmente a mesma coisa. Assim sendo, pouco se poderá fazer e poucas culpas se poderão assacar a Paulo Bento. Acontece, no entanto, que a maioria dos países não tem um dos melhores jogadores do mundo que, na minha opinião, quando joga pela selecção é, as mais das vezes, profundamente vulgar. O que faz no Real não faz na selecção. Falta-lhe Di Maria, Modrić, Xabi Alonso, Bale? Talvez: pois se está habituado a jogar com eles! Agora, quando estes seus amiguinhos vão jogar pelas suas respectivas selecções nenhum deles justifica os seus falhanços com expressões como “faltou-nos maturidade” ou “entrámos a dormir”, como ele explicou o resultado com Israel, ou ainda “só não queria que me saísse a França!” Queria quem? A Suazilândia? Já era altura de Cristiano Ronaldo, de vez em quando, justificar empates ou derrotas com um simples “não joguei nada!” E aí, sim, talvez nós (e outros) nos convencêssemos de que ele é realmente grande. A modéstia fica sempre bem.
ESTREOU no domingo à noite mais um programa de sketches, “Breviário Biltre”, que parece, ao que dizem, quer explorar os tiques e hábitos da sociedade portuguesa. “Este é mais um projecto de ruptura com as linguagens comuns.” Foi com estas palavras que o director de Programas da RTP, Hugo Andrade, adjectivou “Breviário Biltre”, a nova aposta da estação pública na área do humor.
O programa conta com uma lista de sete actores encabeçada por Eduardo Madeira e Manuel Marques e é produzida pelas Produções Fictícias. “Só na RTP é que temos a hipótese de fazer um programa de humor autoral, sem uma preocupação imediata com as audiências,” explicou Eduardo Madeira na apresentação do formato.
Tudo isto é lindo: “projecto de ruptura”, “só na RTP podemos, etc”… O grande problema deste projecto é que nem consegui esboçar um sorriso. E, para ser mais sério ainda, a RTP não pode servir de chapéu-de-chuva a tudo o que for sketch: e se o director de programas não consegue distinguir um bom de um mau, então estamos mal…
SE BEM me lembro, Paulo Macedo trabalhava num banco privado. Até ao dia em que foi nomeado em despacho conjunto do primeiro-ministro Durão Barroso e da ministra Manuela Ferreira Leite. A sua escolha acabou por se rodear de polémica, não pelo seu perfil técnico, mas dado o facto de ter sido requisitado e mantido o seu vencimento de origem, ou seja, o de director-geral adjunto do grupo Banco Comercial Português. Ao contrário da posição oficial, defendendo a sua legalidade e necessidade de contratação de quadros de qualidade, a opção de manter o ordenado de origem para funções públicas permanentes na administração pública foi qualificada, designadamente por juristas como Vital Moreira e Jorge Miranda, como ilegal, provavelmente inconstitucional pela desigualdade criada, além de ser chocante. Tirando estas considerações, até parece que Paulo Macedo fez um bom trabalho nos Impostos e tenho dele, sem o conhecer, uma opinião positiva. Que ficou melhorada quando li que acusou a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, de levar para a reunião de conselho de ministros contas “pouco sérias” sobre as poupanças geradas pelos cortes no Estado e o cumprimento da meta da redução da despesa pública em 2014…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«No curto espaço de pouco mais de um mês, a SIC, através de pessoas tão respeitáveis como o seu presidente e o seu director de programas, veio dizer algumas coisas espantosas – e fazer outras com sinal contrário. A primeira grande tirada foi de Manuel Fonseca, em meados de Setembro, e dizia o seguinte: “A televisão não tem uma função didáctica.” É uma posição questionável mas, apesar de tudo, é uma opinião pessoal que convém respeitar, nestes tempos conturbados de democracia. De resto, ao dizer isto, Manuel Fonseca vem garantir-nos que em termos de coerência poucos o baterão: aquilo que diz e aquilo que programa para o canal de Carnaxide, são uma coisa só. Ao dizer aquilo, Manuel Fonseca poderia ter ido mais longe e ser mais específico – poderia ter dito, por exemplo (e continuava certo na mesma): “A SIC não tem uma função didáctica.” Exemplar. Mas preferiu, com modéstia, não meter a SIC neste barulho e generalizou a frase.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3999 de 18 de Outubro de 2013

