Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

UM CEMITÉRIO CHAMADO LAMPEDUSA NUMA EUROPA COM DEVERES HUMANITÁRIOS

José Jorge Letria

Quase todos os dias legitimamente nos interrogamos: que Europa é esta em que estamos a viver? Que futuro nos reserva? Como será capaz de honrar o seu passado umas vezes trágico e outras glorioso? Como tudo leva a crer que os serviços secretos norte-americanos andam a escutar os líderes europeus, assim sempre ficam a saber que respostas é que eles encontram para interrogações como estas.
O grande historiador Fernand Braudel escreveu um dia que a história do mundo se escreveu, no passado, no Mediterrâneo, na era moderna no Atlântico e, no futuro, será escrita no Pacífico e no Índico. Assim tem sido e continuará a ser. Mas, falando de mares e oceanos, não se pode esquecer que o Mediterrâneo das glórias da Antiguidade está transformado num imenso cemitério marinho, no qual perderam a viva muitas centenas de emigrantes em fuga da miséria africana dos seus países de origem, sim porque em África poucos são os países que se podem dar ao luxo de ser donos e senhores de uma boa parte das economias de países europeus em crise.
Lampedusa tornou-se um nome-síntese deste clima de tragédia, pois é com esse destino que milhares de emigrantes em estado de miséria se fazem ao mar, acabando, muitos deles, por nunca chegar a pôr os pés em terra.
Para muitos europeus, Lampedusa foi, durante muitas décadas, o apelido do príncipe-escritor Tomaso de Lampedusa, que escreveu “O Leopardo”, o seu único romance, depois adaptado ao cinema, com grande êxito, por Luchino Visconti, com Burt Lencaster no protagonista. Hoje, Lampedusa é o nome de uma ilha em desespero, por não saber o que há-de fazer a tanta gente em sofrimento.
A Comissão Europeia decidiu dar algum apoio financeiro, para evitar que seja somente a Itália a arcar com os encargos desta catástrofe humanitária. Mas não chega. O assunto é europeu e não apenas italiano, como muito bem têm lembrado políticos italianos de diversos quadrantes. Mas é também, ou deveria ser, um problema africano, com os mais ricos (que costumam ser muito ricos, mesmo com a riqueza vergonhosamente mal distribuída) a ajudar os mais pobres e a darem-lhes apoio, numa lógica de solidariedade continental. Mas isto não passará, certamente, de uma perspectiva utópica e muito remota. Antes disso haverá ainda, certamente, muitos bancos e empresas a serem comprados na Europa em crise. Enquanto isso, os norte-africanos em fuga da miséria afundam-se nas águas mediterrânicas sem saberem que há quem se sinta amargamente impotentes por não encontrar solução para os salvar.
É importante que a Europa, que ainda é o continente do mundo onde melhor se vive e onde a liberdade e a democracia melhor resistem às investidas da ganância e do obscurantismo, não se esqueça de que tem um dever humanitário indeclinável, para que Lampedusa não fique na História como um imenso e imperdoável cemitério e para que, como se dizia no romance “O Leopardo”, “é preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma”.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4001 de 1/11/2013

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