Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

VINICIUS DE MORAES CEM ANOS DEPOIS: O MISTÉRIO DA POESIA NÃO MORREU

José Jorge Letria

A 19 de Outubro foi celebrado o centenário do nascimento de um dos maiores poetas de língua portuguesa do século XX. Chamava-se Vinicius de Moraes, nasceu no Rio de Janeiro, filho de um violinista e de uma pianista amadores, foi diplomata de profissão mas acabou por assumir a criação poética como a actividade mais marcante e determinante da sua vida intensa, dramática e sempre tocada pelo fogo da paixão.
Parceiro de grandes compositores como João Gilberto, Tom Jobim, Chico Buarque, Toquinho ou Baden Powell, Viniciu foi um dos fundadores do movimento da Bossa Nova, onde deixou o toque imperecível do seu imenso talento poético e musical. Foi dos criadores brasileiros que o público português das décadas de sessenta e setenta do século XX melhor conheceu, pois actuou várias vezes em Lisboa, nomeadamente no Teatro Villaret, e teve como amigos Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira ou Amália Rodrigues, tendo mesmo ficado registos desses encontros musicais e poéticos únicos. Entrevistei-o em Lisboa e não o esqueço.
Foi em Portugal, em 1968, que Vinicius teve conhecimento de que fora afastado compulsivamente da carreira diplomática pela ditadura militar brasileira, que o considerava política e moralmente perigoso, por ter ideias difíceis de domesticar e uma paixão pelas mulheres que o levou a casar-se nove vezes, duas delas com a mesma mulher.
Em palco, sobretudo com o precioso apoio musical de Toquinho, Vinicius era um poeta-cantor de características únicas. Ficava sentado numa mesa no canto do palco e cantava, falava, recitava e bebia muito, demasiado, para uma saúde que se foi debilitando e que o levou a partir de vez em 9 de Julho de 1980, meses antes de completar 67 anos.
Tal como aconteceu em Portugal com grandes criadores poéticos ligados à música, a comunidade académica brasileira tentou marginalizar Vinicius como se se tratasse de uma poeta menor, de um mero poeta das canções. Mas, após a sua morte, o preconceito tem vindo a ser derrotado pelo bom senso e pelo bom gosto e todos estão a descobrir um poeta de fulgurante inspiração e técnica, de uma grande diversidade temática e estilística, que também escreveu teatro, livros para crianças, livros de crónicas e muita crítica de cinema.
Assumindo-se como um poeta e “performer” profissional, Vinicius tornou-se um viajante incansável, com actuações regulares em todo o Brasil, em Itália e em Portugal, país de que muito gostava e que depressa o adoptou, sobretudo depois de ter lido os poemas do livro “O Operário em Construção”.
Sobre Vinicius de Morais já se fizeram filmes, documentários e escreveram biografias. Sobre ele há sempre histórias inéditas e episódios interessantes por contar. O poeta passou a integrar, num lugar de honra, o imaginário colectivo do Brasil e, em sentido mais lato, o das culturas de língua portuguesa.
Celebrar Vinicius e a sua poesia intemporal no centenário do seu nascimento é celebrar o melhor da cultura lusófona com a sua universidade e exaltante diversidade.
Aquele que disse que “o amor é eterno enquanto dura” nunca virou a cara aos grandes impulsos da paixão que o levaram a não virar nunca a cara àquilo que o coração lhe pedia que se convertesse em compromisso e motivo de inspiração poética. Os países e os povos ficam mais pobres quando vozes como a de Vinicius se calam. Mas ficam outras para as multiplicarem, difundirem e se reverem nelas, pois é nelas que residem a magia e o mistério que nos dão asas para sonhar.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4000, de 25 de outubro de 2013.

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