Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Só temos coisas que nos ralem…

Bernardo de Brito e Cunha

NA NOVELA portuguesa da SIC “Sol de Inverno”, a personagem Mariano Alvarenga, desempenhada pelo actor Filipe Vargas, representa um dono de biblioteca, culto, sempre com uma citação a propósito de tudo o que se passa à sua volta. No episódio de quarta-feira passada, a propósito de uma afirmação do actor Jorge Corrula, segundo o qual “o amor cansa muito”, Mariano responde com “Estou tentado a concordar com Fielding: ‘O que normalmente se chama de amor é, na realidade, o desejo de satisfazer um apetite voraz com uma certa quantidade de delicada carne [branca] humana’.” A palavra entre parêntesis e em itálico, que consta da citação de Fielding (Henry, suponho), foi omitida da citação do cultíssimo Mariano: talvez por soar estranha, citada quase três séculos depois… Mas estranho que um homem tão culto não tenha optado por uma citação nacional, que não tenha escolhido Eça de Queiroz em “O Crime do Padre Amaro” e em que, às tantas, o Dr. Gouveia diz a João Eduardo: “O amor é uma das grandes forças da civilização. Bem dirigida levanta um mundo e bastava para nos fazer a revolução moral…” E mudando de tom. “Mas escuta. Olha que isso às vezes não é paixão, não está no coração… O coração é ordinariamente um termo de que nos servimos, por decência, para designar outro órgão. É precisamente esse órgão o único que está interessado, a maior parte das vezes, em questões de sentimento. E nesses casos o desgosto não dura. Adeus, estimo que seja isso!” E esta citação de Eça parece-me bem mais elegante…

OUVI O ANTERIOR ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, afirmar, numa noite de final de Outubro, em Coimbra, que Portugal tem de baixar os impostos das famílias e das empresas nos próximos anos. Disse o antigo ministro que “Nos próximos anos, Portugal, qualquer que seja o Governo, tem obrigação de baixar os impostos das famílias e tem obrigação de baixar os impostos das empresas”, que falava num jantar de apoio à candidatura de João Paulo Barbosa de Melo, pela coligação PSD/PPM/MPT, à Câmara de Coimbra. Parece, então, que Álvaro Santos Pereira não tem “o mínimo de dúvidas” que “para Portugal se tornar num destino de investimento estrangeiro”, tem de baixar os impostos, designadamente o IRC (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas). “Nós temos de conseguir a taxa de IRC mais competitiva da Europa e se não a conseguirmos em cinco ou em sete anos teremos de a conseguir em dez anos”, sublinhou o antigo ministro: “O IRC a 10 porcento é fundamental nos próximos dez anos”, afirmou, considerando igualmente essencial que “os partidos do arco da governação se comprometam” a descer este imposto para aquela taxa, na próxima década.
Esta reportagem sobre as palavras de Álvaro Santos Pereira fez-me compreender, por um lado, a razão por que Álvaro foi corrido e passou a ser ex-ministro. E, por outro, os motivos que levaram muita gente fora do “arco da governação” a gritar “Álvaro a ministro, já!”…

UMA EQUIPA da TVI percorreu o país e encontrou escolas públicas vazias, em risco de fechar, cercadas por colégios privados que nunca deveriam ter tido autorização para serem construídos. São colégios privados, construídos de norte a sul do país e financiados pelo Estado com muitos milhões para que todos contribuímos. Ao todo, percebeu-se na reportagem de Ana Leal, são 81 colégios pagos por todos nós. Muitos deles autorizados ao lado de escolas públicas que não conseguem dar resposta. Uma reportagem oportuna, numa altura em que o Governo se prepara para mudar a lei que até agora esteve na génese dos contratos de associação. E percebe-se que, actualmente, o que se pretende é implementar a chamada “liberdade de escolha”, abrindo-se caminho ao chamado cheque-ensino.
Na reportagem descobriu-se uma teia de cumplicidades que abrange ex-governantes que, depois de exercerem os cargos, passaram a trabalhar para grupos económicos detentores de muitos desses colégios, ou ex-directores regionais de educação que fundaram depois colégios que são pagos com o dinheiro dos contribuintes. “Verdade Inconveniente” (que merecia ter tido um espaço próprio e não o “rabinho” do “Jornal das 8”) foi uma grande investigação que mostrou o retrato de um país que se prepara para pagar, até ao fim deste ano, mais de 154 milhões de euros em contratos de associação.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«No último domingo, também na RTP, vi uma peça interessantíssima, sob diversos aspectos – de reportagem e de valor humano. Passou integrada no Telejornal, onde terá, eventualmente, sido “engolida” pelas outras notícias, mas foi repetida na manhã seguinte, no “Bom Dia Portugal”. A RTP acompanhou a equipa do professor Manuel Antunes, da Universidade de Coimbra, numa corrida contra o tempo, em Moçambique. Foram 22 operações a outros tantos corações, no espaço de cinco dias. E para além das especificidades de cada um dos casos, da implantação de válvulas cardíacas artificiais, não deixou de ser comovente ver Manuel Antunes dar um biberão de leite a um dos doentes mais pequeninos, assim que acordou da anestesia… São estas coisas que ainda me fazem ter alguma esperança na raça humana.»

(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4002 de 8 de Novembro de 2013.

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