Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Onde se fala de RAP e de outras músicas

Bernardo de Brito e Cunha

O PROGRAMA da RTP “Breviário Biltre”, que passa aos domingos à noite, não tem uma graça por aí além. Não sei quem o escreve, por isso estou completamente à vontade para dizer que não me faz nem sorrir. Acontece, no entanto, que no último domingo apresentou um sketch que ultrapassou todos os limites. Se foi ofensivo? Antes tivesse sido. O sketch em que a mãe descobre que o filho pertence a uma “jota” partidária é um plágio: foi baseada numa das “Mixórdias de Temáticas” que Ricardo Araújo Pereira fez para a Rádio Comercial e que se chamava, se não estou em erro, “Perdi o Meu Filho para Um Flagelo Pior que o Time-Sharing”, transmitida há perto de um ano, a 3 de Dezembro do ano passado. Se a ideia geral foi tirada daqui (excepto o final), uma das frases de resposta da mãe é copiada textualmente de um sketch dos Gato Fedorento (“A Minha Vida Dava Um Filme Indiano”): “Se ao menos tivesses ido para as drogas!”. Acho estranho que os autores do sketch se tenham metido nisto: sobretudo porque o original tem muito mais graça…

PERCEBE-SE pelo parágrafo anterior que sou um seguidor atento do trabalho de Ricardo Araújo Pereira e creio que ninguém lhe negará o talento que tem. Uma das coisas que me deixa perplexo (sobretudo a mim, que tantas vezes tenho dificuldades quase insanáveis para escrever esta meia página) é a sua capacidade de trabalho e o volume de obra que regularmente apresenta. Não sei como é possível fazer, semanalmente, parte de o “Governo Sombra” (na TVI24 e na TSF), uma crónica para a Visão – e isto há uma série de anos. Numa entrevista recente ao “5 para a Meia-Noite”, na RTP1, confessou que as crónicas diárias para a Rádio Comercial, as “Mixórdias”, eram escritas às seis e meia da manhã para serem lidas às oito e meia… E foram 250! Calculo que tenha algum material de reserva, mas mesmo assim. Sigo, portanto, com atenção aquilo que ele vai fazendo. E (estas coisas são sempre assim…) espero que a cada nova crónica, a cada nova entrevista, a cada novo programa, ele me surpreenda, o que acontece muitas vezes. Muitas, mas nem sempre.

É QUE À SEMELHANÇA da equipa do “Breviário Biltre”, também Ricardo Araújo Pereira se plagia a si mesmo. Embora o auto-plágio não seja tão grave, sinto-me sempre um pouco “roubado” quando lhe ouço uma ou mais frases no “Governo Sombra” e, na quinta-feira seguinte a vejo escrita na crónica da Visão: sinto-me um pouco defraudado, já conhecia a frase ou frases… Mas compreendo que ele sinta que esse (bom) material é capaz de se perder um pouco no canal de televisão ou no de rádio, sendo que o primeiro, ainda por cima, é transmitido por cabo: porque não dá-lo a conhecer a um leque mais alargado de pessoas? Eu sei que isto é perfeitamente racional mas, quando uma coisa é boa, queremos sempre mais – embora se chegue a um ponto em que não é possível, humanamente possível, continuar a bater recordes, por assim dizer. Mesmo que se trate de Ricardo Araújo Pereira…

COMEÇOU O novo concurso do serviço público, “Chefs Academy”, que é uma escola com quatro docentes, os chefs António Alexandre, Marlene, Henrique Sá Pessoa e Kiko (e ainda um director, o chef Cordeiro) que vão avaliar ao longo de 12 emissões os “estudantes”, com idades compreendidas entre os 18 e os 40 anos. Em cada programa haverá duas aulas teóricas, duas práticas, e uma prova. O novo programa dos sábados à noite contará ainda com visitas de estudo e convidados especiais que vão dinamizar o concurso, que tem um prémio final de 20 mil euros e ainda três mil euros em compras. No entanto, não começou bem, ou teve um começo chocho. E o chef Cordeiro não tem já idade para se deixar de graçolas secas? Quando os tachos nos sobem à cabeça é terrível.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Não deve ter sido por capricho (ou, já agora, para completar o verso do fado, por presunção) que os antigos gregos inventaram essa ideia que dá pelo nome de democracia. De facto, essa coisa de ser o povo a governar era uma ideia tão genial, era a transposição para a vida real do verdadeiro sentido das coisas, que hoje em dia, os gregos modernos utilizam a mesma palavra para “democracia” e para “República”. Parece perfeito. Mas no campo da teoria, está bom de ver: ou, melhor dizendo, perfeito para tudo menos para os programas de televisão que necessitam do voto popular para empatar, desempatar, mandar para casa, deixar ficar… eu sei lá! Isto aplica-se, no caso vertente, a dois programas (há mais, claro: mas ao “Big Brother” já deixei de ligar há muito) em particular: “Ídolos” e “Operação Triunfo”. São dois programas que têm apenas um ponto em comum: descobrir talentos para a música portuguesa. De resto, os caminhos são diferentes, nomeadamente no que diz respeito ao estudo: a “Operação Triunfo” treina e ensina, “Ídolos” é uma coisa mais pela rama e baseada nessa coisa discutível (se não for trabalhada) a que se dá o nome de ‘o talento que Deus me deu’.»

(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4005 de 29 de Novembro de 2013.

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