Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Junho 11th 2026

O VALOR DA ARTE E DA CULTURA EM TEMPO DE GUERRA

José Jorge Letria

É em tempo de guerra e de profundas crises estruturais que vale a pena reflectir sobre a importância que a cultura tem para a vida das comunidades e para o seu futuro. “The Monuments Men”, o mais recente filme de George Clooney, desenvolve de forma sábia esse tema, partindo de uma história verídica que envolveu menos de uma dezena de especialistas em História de Arte na fase final da II Guerra Mundial, numa Europa devastada em que os nazis tentavam destruir milhares de obras de arte que tinham pilhado, sobretudo por ordem de Hermann Goering, de museus e colecções públicas e particulares, em especial as pertencentes a judeus entretanto exterminados nos campos de concentração ou salvos pela partida para o exílio.
O Presidente Franklin Delano Roosevelt, e também a sua mulher Eleanor, criaram condições para que os Estados Unidos conseguissem salvar da fúria destruidora do nazismo artistas, autores, cientistas e homens e mulheres de pensamento, muitos dos quais alcançaram porto seguro através de um Portugal neutral mas sufocado por uma longa ditadura.
Vale a pena recordar a notável acção do norte-americano Varian Fry, enviado por Eleanor Roosevelt para o sul de França para ajudar a salvar personalidades como Marc Chagall, Max Ernst, Alma Mahler, Heinrich Mann ou Hannh Arendt, que passaram sem excepção por Lisboa rumo à liberdade, sobretudo nos Estados Unidos.
O filme de George Clooney, que destaco como mero espectador e como cidadão, tem o grande mérito de nos demonstrar de que modo um restrito punhado de homens conseguiu mostrar ao poder político e militar a importância cultural e civilizacional da grande arte quando os valores humanos fundamentais se afundam nas ruínas fumegantes da guerra, seja ela qual for.
Uma cena do filme é exemplar, pela negativa, a esse respeito. Quando, depois de terem salvo milhares de telas e peças escultóricas de vários séculos, os “Monuments Men” descobrem, casualmente, centenas de milhões de dólares em barras de ouro, ou seja, as reservas de ouro do III Reich, os nomes mais destacados das Forças Armadas dos Estados Unidos dão uma conferência de imprensa, com o ouro em fundo, sem nada dizerem sobre a arte sem preço salva das garras da ganância nazi.
Por sua vez, a personagem representada por Clooney lembra que a grande arte, que não tem preço, vale, acima de tudo, por representar a cultura e os valores que suportam a nossa memória colectiva e milénios de civilização, sendo sempre uma resposta à barbárie, seja ela nazi ou outra. Do mesmo modo que Winston Churchill respondeu a quem o criticava por apoiar financeira a cultura em tempo de esforço de guerra que, se se desistisse, de lutar por esses valores, valeria a pena combater por quê, hoje e sempre é fundamental que olhemos para a arte e para a cultura, seja ela quadros de Miró, de Rembrandt, de Picasso ou de Gauguin ou Van Gogh, como um elemento fundamental da nossa identidade colectiva, do nosso milenar património de civilização e do nosso amor à paz.
Este filme de Clooney, que os jovens em idade escolar devem ver por ser fonte de informação e de sensibilização para os valores da cultura e da arte, é um verdadeiro hino à importância da criação humana enquanto factor de engrandecimento espiritual, de diálogo entre culturas e civilizações e de respeito pelo que é belo, intemporal e universal.
Enquanto os “Monument Men” salvavam obras de arte essenciais em França, na Bélgica e na Alemanha, havia quem perguntasse na Administração norte-americana se salvar um quadro ou uma escultura de valor incalculável poderia justificar a perda de uma vida humana. A filme responde afirmativamente e demonstra mesmo que esse sacrifício só os verdadeiros heróis são capazes de fazer. Daí que esta seja uma obra sobre a heroicidade de quem luta por aquilo que considera imprescindível para que a humanidade sobreviva à perda de valores estruturais, à fúria globalizadora e ao modo como o “ter” sistematicamente se sobreponha ao “ser”.
Agora que se assinala a passagem do centenário da I Grande Guerra e os 75 anos do início da II Guerra Mundial, encontramos neste filme uma verdadeira celebração humanista e contagiante do valor da arte e da cultura em tempo de guerra e de crise profunda, ou seja, no momento certo.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4016 de 28 de fevereiro de 2014

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