Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

PETE SEEGER: MORREU O TROVADOR DA LIBERDADE


José Jorge Letria

Com a morte de Pete Seeger, aos 94 anos, num hospital de Nova Iorque, perde a cultura popular norte-americana uma das suas figuras mais influentes e emblemáticas e também um dos mais corajosos críticos da desumanidade que está contida na sede de lucro do capitalismo.
Pete Seeger nunca vacilou nem recuou, durante uma vida invulgarmente longa, sempre que foi necessário juntar a sua voz a outras vozes em nome de causas em que acreditava e que poderiam tornar o mundo mais humano e solidário.
Filho do musicólogo e antropólogo Charles Seeger, que muito contribuiu para fixar, na Biblioteca do Congresso, a memória musical fundadora de um país novo e construído com o sangue, o suor e as lágrimas de milhões de imigrantes, mas também com o sacrifício de milhões de índios pertencentes a centenas de tribos, Pete Seeger nasceu em Manhattan a 3 de Maio de 1919, cedo se revelando um excelente tocador de viola e de banjo, para o qual criou mesmo o seu método próprio.
Chegou a ser companheiro de Woody Guthrie, ergueu a voz a favor dos republicanos na Guerra Civil de Espanha, ainda adolescente, depois contra o terror nazi, mais tarde contra a segregação racional, o que o levou a ser um dos brancos que estiveram ao lado de Martin Luther King, mais tarde ainda contra a desumanidade com que eram e são tratados os imigrantes mexicanos nas zonas de fronteira, depois contra a intervenção norte-americana no Vietname e, posteriormente, no Iraque. Nenhuma destas lutas lhe foi alheia.
Foi militante do Partido Comunista dos Estados Unidos, que abandonou em 1950, em ruptura com o modelo estalinista, o que não o impediu de ser condenado a um ano de prisão, que no entanto não chegou a cumprir. Ficou famoso por ser autor de canções como “If I Had a Hammer”, popularizada também por “Peter, Paul and Mary”, “Where Have All the Flowers Gone ?” ou “Turn, Turn, Turn”, que chegou aos “tops” na fantástica versão dos “Byrds”. Dirigiu o grupo “The Weavers” e foi responsável pelo Festival de Música Folk de Newport, que contribuiu para a fama de Bob Dylan e depois o contestou quando ele introduziu o elemento eléctrico nos seus discos, “traindo” segundo alguns a pureza original do “folk”.
Logo após o 25 de Abril, sendo eu responsável pela programação musical da Emissora Nacional a convite dos militares do MFA, convidei-o para vir actuar num “canto livre” no Teatro São Luiz. Declinou o convite, mas escreveu-me uma carta de quatro páginas agradecendo o convite e reflectindo sobre a importância do derrube da ditadura, designadamente para a libertação dos povos das ex-colónias. Em meados de 1983, fui, com Ruben de Carvalho, Sérgio Godinho, João Paulo Guerra e Daniel Ricardo, um dos responsáveis pela sua vinda a Lisboa e notável actuação no Pavilhão dos Desportos, à cunha para o ver, ouvir e aplaudir entusiasticamente. Só então o conheci pessoalmente e pude conversar com ele com tempo suficiente para apreciar a sua simpatia, acessibilidade, amor às causas da liberdade e profundo conhecimento do que fora a resistência portuguesa. Prometeu-me que havia de voltar, mas não houve oportunidade para a promessa ser cumprida. Também não esqueci a admiração que tinha pela música de José Afonso, que conhecia, tendo levado de Lisboa vários discos seus que nunca tinha ouvido.
Dessa noite, no Pavilhão dos Desportos, recordo-me de ouvir milhares de vozes a cantar “We Shall Overcome”, que ele popularizou e internacionalizou como hino das lutas pelos direitos civis, pela liberdade e pela democracia e que também foi cantada em Portugal na Crise de 1969, quando a ditadura começava a agonizar.
Recordo-me ainda de que foi ele que descobriu o canadiano “Don MaClean, famoso pelas canções “Vincent”(sobre Van Gogh) e “American Pie”, sendo muito admirado por Bruce Springsteen, que fez espectáculos em sua honra, e por Rufus Wainwright, da geração, mais recente.
O mundo ficou mais pobre por ter morrido um cantor, um poeta, um homem bom e livre e um símbolo dos valores do humanismo e da solidariedade que os “lobos” de “Wall Street” não desistem de silenciar e fazer prescrever, felizmente sem êxito. Neste momento de perda, só me apetece dizer: que viva Pete Seeger e tudo o que ele continua a representar neste mundo em crise ! E, já agora, se eu tivesse um martelo ( If I Had a Hammer), sei bem como havia de usá-lo.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed, 4013 de 7 de Fevereiro de 2014

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