Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

História Local – Raul Lino

Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra no Palácio dos Seteais
A Primeira Casa de Raul Lino

Rodrigo Sobral Cunha

«Foi um atrevimento apresentar um projecto de pavilhão inspirado em estilos portugueses de várias épocas, combinados numa composição, verosímil e bastante harmoniosa, em que sobressaem reminiscências amouriscadas do nosso Alentejo, que foi o meu primeiro namoro depois do regresso a Portugal. A iniciativa foi arrojada mas o terreno não estava por cá preparado, e mesmo que estivesse!»
R.L. (Diário de Notícias, 21-11-1969)

Projecto de Raul Lino para o pavilhão Português na Exposição de Paris de 1900

Projecto de Raul Lino para o pavilhão Português na Exposição de Paris de 1900

Oferece-se à contemplação do leitor o magnífico projecto do arquitecto Raul Lino para o Pavilhão Português na Exposição Universal de Paris de 1900. A atenção é logo cativada pelo sentimento de familiaridade que a composição apresenta ao gosto genuinamente português. E isto é o principal. Segue-se o reconhecimento dos traços mouriscos alentejanos, do género robusto e leve quinhentista, os detalhes tradicionais articulados com viva e renovada intuição arquetípica, o jogo de volumetria à século dezassete sem perda do espírito depurado do Renascimento, tudo resultante num feliz exercício estilístico do qual sobressai, ao final, a elegante harmonia do conjunto com um certo sabor intemporal. Poder-se-ia falar também de tradicionalismo futurista ou de vero futurismo tradicionalista, à escolha, se estivéssemos para aí virados. O importante é que mais temos a impressão de que esta Casa foi ideada a partir de Sintra, e talvez sonhada para ser aí feita, pois bem se sente nela a matriz do Paço Real, particularmente na graça viril da janela joanina cupulada de sugestão polícroma junto a uma grande chaminé, numa cenografia que lembra a própria vila de Sintra na sua amorosa alegria característica que rescende desde o natural fundamento, elevando-se por obras e graças, até ao firmamento.
O leitor paciente que não considere despiciente um breve exercício de mortificação do gosto, pode contrastar esta obra-prima de Raul Lino, feita aos vinte anos de idade no seguimento da lição do alemão Haupt (que soube converter o jovem português à portuguesa arquitectura), pode contrastá-la, dizíamos, com a espécie de caixa de bombons francesa com que os nossos liliputianos estrangeirados costumeiros obsequiaram a Europa da época como representamen da arquitectura portuguesa. O caso não deixou de dar azo ao riso português e Rafael Bordalo Pinheiro reproduziu n’A Paródia, em Janeiro de 1900, «o lindo projecto de casa típica portuguesa do sr. Raul Lino», preterido «pela comissão, a qual deu todos os seus sufrágios ao Water-closet».
Melhor fará, todavia, quem saiba ver a primeira Casa da autoria de Raul Lino com o olhar que ela mesma pede e que todos nós os portugueses podemos, quem sabe, encontrar ainda no fundo de nós mesmos. – Posto que foi do casamento do nosso íntimo sentir com a paisagem que nasceram os nossos modos artísticos e as nossas peculiares maneiras, designadamente as de habitar. Neste afortunado caso, teremos de ver para além do desperdício de materiais e de espaço de tempo a que hoje em dia se chama construção e que mais adequadamente se deveria chamar obstrução, ou até mais economicamente obturação. Que saibamos, há em Sintra umas «escadinhas Raul Lino», pequena e tímida homenagem, do tipo miniatural, ao homem que tanto deu à sua vila de eleição (até as ditas escadinhas!). Mas como se proporão os eleitos da vila homenagear Raul Lino? Cremos que uma ideia está à vista do superior leitor. – Depois de se ter o olhar desobstruído e depois de refazer com a inteligência e os sentidos a arte de ver, o que é a missão perene daqueles que amam a beleza, – depois disto feito, será só erguer aquela Casa de verdade em Sintra. Eis o que seria verdadeira excelência. Programa

Publicado no Jornal de Sintra, ed. 4016 de 28 de Fevereiro de 2014

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