Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra no Palácio dos Seteais
A Primeira Casa de Raul Lino
Rodrigo Sobral Cunha
«Foi um atrevimento apresentar um projecto de pavilhão inspirado em estilos portugueses de várias épocas, combinados numa composição, verosímil e bastante harmoniosa, em que sobressaem reminiscências amouriscadas do nosso Alentejo, que foi o meu primeiro namoro depois do regresso a Portugal. A iniciativa foi arrojada mas o terreno não estava por cá preparado, e mesmo que estivesse!»
R.L. (Diário de Notícias, 21-11-1969)
O leitor paciente que não considere despiciente um breve exercício de mortificação do gosto, pode contrastar esta obra-prima de Raul Lino, feita aos vinte anos de idade no seguimento da lição do alemão Haupt (que soube converter o jovem português à portuguesa arquitectura), pode contrastá-la, dizíamos, com a espécie de caixa de bombons francesa com que os nossos liliputianos estrangeirados costumeiros obsequiaram a Europa da época como representamen da arquitectura portuguesa. O caso não deixou de dar azo ao riso português e Rafael Bordalo Pinheiro reproduziu n’A Paródia, em Janeiro de 1900, «o lindo projecto de casa típica portuguesa do sr. Raul Lino», preterido «pela comissão, a qual deu todos os seus sufrágios ao Water-closet».
Melhor fará, todavia, quem saiba ver a primeira Casa da autoria de Raul Lino com o olhar que ela mesma pede e que todos nós os portugueses podemos, quem sabe, encontrar ainda no fundo de nós mesmos. – Posto que foi do casamento do nosso íntimo sentir com a paisagem que nasceram os nossos modos artísticos e as nossas peculiares maneiras, designadamente as de habitar. Neste afortunado caso, teremos de ver para além do desperdício de materiais e de espaço de tempo a que hoje em dia se chama construção e que mais adequadamente se deveria chamar obstrução, ou até mais economicamente obturação. Que saibamos, há em Sintra umas «escadinhas Raul Lino», pequena e tímida homenagem, do tipo miniatural, ao homem que tanto deu à sua vila de eleição (até as ditas escadinhas!). Mas como se proporão os eleitos da vila homenagear Raul Lino? Cremos que uma ideia está à vista do superior leitor. – Depois de se ter o olhar desobstruído e depois de refazer com a inteligência e os sentidos a arte de ver, o que é a missão perene daqueles que amam a beleza, – depois disto feito, será só erguer aquela Casa de verdade em Sintra. Eis o que seria verdadeira excelência.
Publicado no Jornal de Sintra, ed. 4016 de 28 de Fevereiro de 2014


