José Jorge Letria
Em regra, as comemorações tendem a ser nostálgicas e passadistas, mas é indispensável que as dos 40 anos do 25 de Abril tenham também o valor de um acto de protesto e resistência e que sejam sentidas e pensadas com os olhos postos no futuro. Porquê ? Porque os valores de igualdade, justiça e solidariedade social que o 25 de Abril representou não prescreveram e fazem um sentido redobrado quando Portugal e os Portugueses vivem um ciclo de governação caracterizado pela destruição da classe média, pelo progressivo abandono dos mais idosos e dos mais desfavorecidos, pela impunidade de muitos corruptos e de banqueiros fraudulentos e ainda por uma cruzada propagandística que visa criar no maior número possível de cidadãos a ilusão de que o pior já passou e que estamos a viver, com o aplauso da Europa dos ricos, uma espécie de “milagre económico” que o quotidiano das pessoas amargamente desmente.
Os Portugueses estão, em geral, cansados e revoltados, e nem é preciso destacar as justas acções de protesto de milhares de agentes das forças de segurança e de elementos das Forças Armadas. Por outro lado, não tende a abrandar a verdadeira “sangria” de quadros com qualificação superior, desde os enfermeiros aos investigadores científicos,que não desperdiçam qualquer oportunidade de encontrarem noutros países, mesmo nos mais distantes, as condições de trabalho, de reconhecimento e de remuneração que Portugal infelizmente lhes nega.
O que se passa na área da Cultura é também confrangedor. Os agentes culturais contam com apoios cada vez mais reduzidos, ou mesmo com a inexistência deles, continua a não haver um quadro legislativo que proteja os autores e os cortes visíveis no Orçamento de Estado para este sector de importância estratégica deixam prever novos agravamentos da situação. Despromovida do estatuto de ministério ao de Secretaria de Estado, a Cultura tornou-se um parente ainda mais pobre à mesa do Orçamento do que já havia sido em anos e ciclos políticos anteriores.
Como se tudo isto não bastasse, o desemprego continua a ser um flagelo nacional e não cessa de aumentar o número de Portugueses que recorrem a ansiolíticos e antidepressivos para conseguirem suportar o embate com uma realidade social e económica que lhes é claramente hostil, embora eles sejam, de facto, o capital principal deste país.
Depois, tornou-se clara, com a reacção do governo ao Manifesto dos 70, a tendência “musculada” dos inquilinos da residência oficial de São Bento e da Gomes Teixeira para não suportarem as vozes discordantes, sobretudo quando algumas delas são das mais respeitáveis e dignas do seu campo político. A reacção irada do dr. Passos Coelho num debate promovido por um jornal económico e durante a inauguração das novas instalações da Polícia Judiciária, foi reveladora da solidez do “espírito democrático” do primeiro-ministro, com quem a SrªMerkel tanto simpatiza, por ver nele o bom aluno que é preciso apaparicar e dar como exemplo. Mas exemplo de quê e para quem ? O mais grave é que são estes aplausos que depois abrem portas para sinecuras de luxo e para prateleiras douradas como aconteceu com Vítor Gaspar e Álvaro Santos Pereira.
Somados todos estes factores e focos de tensão, somos forçados a constatar que o único “milagre” que é capaz de existir no meio desta floresta de enganos é o da infinita paciência dos Portugueses que, mesmo revoltados e cansados, continuam a agir e a reagir como o “boi da paciência” de que falava o grande poeta Alexandre O’Neill. O pior é que a paciência acaba sempre por se esgotar, como a História nunca deixou de demonstrar, tantas vezes de forma dramática.
É por todas estas razões que os 40 anos de Abril, tal como “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, canção criada há 50 anos, devem ser encarados como momentos e ferramentas do protesto e da indignação popular, relembrando o que foi, há quatro décadas, o júbilo de um povo que se viu, finalmente, liberto de servidões, grilhetas e mordaças. E vai ser interessante observar o modo como as autarquias com maiorias políticas da mesma “cor” que a do governo vão corresponder ao desafio da Associação 25 de Abril e do seu presidente, o coronel Vasco Lourenço, para que se associem condignamente às comemorações e promovam iniciativas que envolvam a população em geral e de uma forma particular a juventude. Estou em crer que muitas delas vão assobiar para o ar e esquecer o repto dos homens que fizeram Abril. Será muito triste se assim acontecer, até porque lhes devem a liberdade que hoje lhes permite ser poder.
Este Abril, com a maturidade dos seus 40 anos de vida, deve ser um tempo de encontro e reencontro, de partilha, de desejo de mudança, de combatividade e de esperança, de alegria e de mobilização de energias para o novo ciclo que irá chegar. Essa será a melhor homenagem que se poderá prestar aos Capitães de Abril e aos milhares de homens e mulheres que resistiram à ditadura, pagando, muitas vezes, com a prisão, com a tortura e com a própria vida. Que seja, pois, um Abril de olhos postos no futuro, para que o amanhã por vir devolva à nossa democracia a dignidade, a grandeza, o sentido de justiça e de solidariedade com os mais desfavorecidos que nunca deveria ter perdido durante esta longa caminhada.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4019 de 21 de Março de 2014.

