Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Abril 17th 2026

40 ANOS DE ABRIL SEM MILITARES É ANIVERSÁRIO IMPERFEITO

José Jorge Letria

A política organizou-se em Portugal da maneira que sabemos porque foram os militares que derrubaram o regime ditatorial e porque não houve transições institucionais sem sobressaltos ou rupturas, como aconteceu na vizinha Espanha. Para além disso, teve Portugal a sorte de ver a ditadura derrubada por militares que aceitaram transferir o poder para os partidos sem quererem eternizar-se no exercício de qualquer poder mais ou menos formal, mais ou menos representativo, mais ou menos oficial.
Nesse sentido, é justo afirmar-se que, 40 anos volvidos sobre o derrube efectivo da ditadura no Quartel da GNR, no Largo do Carmo, todos continuamos a ter uma dívida moral e formal para com os militares do 25 de Abril, tanto os que estão entre nós como aqueles que já partiram, alguns demasiado cedo, como foi o caso de Salgueiro Maia, que a democracia entretanto instaurada não soube tratar da melhor maneira.
Vêm estas considerações iniciais a propósito do modo como a presidente da Assembleia da República decidiu lidar com os militares da Associação 25 de Abril a propósito do acto comemorativo dos 40 anos do 25 de Abril. Limitou-se a senhora, que já foi juíza do Tribunal Constitucional e que talvez alimente ainda outros sonhos políticos, a dizer que falou telefonicamente com o coronel Vasco Lourenço e que agora o problema é dos militares, pois não está prevista a sua intervenção no parlamento português. Saliente-se, desde já, o facto de se irem comemorar os 40 anos do 25 de Abril e não os 38 da Assembleia da República. Desta forma, os militares poderão estar ausentes do ciclo que entretanto iniciaram com coragem e determinação cívica e política, correndo todos os riscos inerentes ao acto.
Tudo leva a crer que um responsável político quer evitar que, na Assembleia da República, representantes da estrutura que fez triunfar o 25 de Abril possam produzir afirmações lesivas para os civis que hoje detêm o poder. Porém, se assim for, a atitude não lhe fica nada bem nem à estrutura política que representa e dirige. Os militares, há muito sem poder, têm todo o direito de ser figuras destacadas no acto que vai evocar e celebrar a mudança histórica de que foram as personagens centrais. É o mínimo que deles se pode e deve esperar, num tempo em que as suas vozes já pertencem à História, ainda que essa História possa ter futuro e que o momento presente constitua a própria certeza desse futuro. Vedar essa possibilidade pouco ou nada tem a ver com o significado histórico e político da data e de quem a fez triunfante. A presidente da Assembleia da República parece não o ter percebido ou querer estar disponível para o perceber, o que está longe de constituir um sinal de saudável vivência democrática. O próprio tom em que falou do assunto, em declarações à RDP, esteve longe de evidenciar a serenidade e a grandeza de espírito que dela se espera e exige.
Onde os militares de Abril estiverem e falarem é que os 40 anos da data verdadeiramente se irão comemorar. O resto será o que for, mas sobretudo um acto incompleto e imperfeito. Se comemorarem o meu aniversário sem mim, alguma coisa por certo há-de faltar, e não será tão pequena quanto isso. E o pior é que toda a gente vai imaginar, com destaque e pormenor, aquilo que os militares ficaram impossibilitados de dizer.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4023 de 18 de Abril de 2014.

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