Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

O ADEUS DE GABRIEL GARCÍA MARQUEZ: UMA OBRA MAIOR DO QUE UMA VIDA

José Jorge Letria

Com a morte de Gabriel García Marquez, aos 87 anos, na Cidade do México, que adoptou e o adoptou, perdeu a literatura mundial um dos seus maiores criadores de sempre. Ex-jornalista e grande cronista, o escritor, que “Cem Anos de Solidão”, de 1967, tornou mundialmente famoso, era o mais velho de 11 irmãos e passou a parte mais importante da infância em Aracataca, na sua Colômbia natal, de onde partiu com os pais para Sincé. Tudo o que viu e ouviu ficou registado numa memória profunda que o tempo se encarregou de reinventar sob a designação de “realismo mágico”, tendência e estilo que tanto marcaram a literatura mundial das últimas décadas do século XX.
Só de “Cem Anos de Solidão” vendeu García Marquez mais de 30 milhões de exemplares, traduzidos em cerca de três dezenas de idiomas. Galardoado com o Prémio Nobel da Literatura (1982), tornou-se uma referência cultural e política, também devido à relação de amizade com Fidel Castro, que entretanto lhe sobrevive. Já antes de publicar o livro que o tornaria grande referência mundial editara o escritor “ A Revoada”, em 1955, e “Ninguém Escreve ao Coronel”, em 1961.
García Marquez deixou uma obra extensa e muito rica de situações e personagens que fez sempre questão de associar à realidade que lhe estava na origem, tendo chegado também a publicar, em 2002, o livro de memórias “Viver para Contar”, que obteve em Portugal muito menos acolhimento que a sua obra ficcional.
Sempre foi um homem muito atento, de apurado sentido de humor e profunda cultura literária e política, que vi de perto em Lisboa, julgo que no Verão de 1975, e que depois reencontrei no México, no início dos anos 90 do século passado, numa ocasião em que pude mesmo visitar, em Veracruz, o café onde, ainda desconhecido, escreveu parte dos seus primeiros livros, na transição dos anos 50 para a década seguinte. Foi um tempo de grandes e duras opções que se caracterizou pela escassez de dinheiro e por uma profunda vontade de ser escritor a tempo inteiro e de ver a sua obra reconhecida e aplaudida. Tudo isso conseguiu com resultados apreciáveis e, também por esse motivo, ainda antes do Nobel da Literatura de 1982, foi tão aplaudido em Portugal, onde tinha um grande amigo chamado José Cardoso Pires, que conhecera em Londres, logo no início da década de 70. O autor de “O Delfim”, pouco dado a grandes entusiasmos verbais, falou-me sempre dele com enorme apreço e admiração.
Talvez a sua leitura de “A Metamorfose”, de Franz Kafka, lhe tenha permitido descobrir que, nas narrativas informais de sua avó, já havia muito da transfiguração em que assentava a magia do fantástico. Ele, juntamente com outros escritores como Mario Vargas Llosa, de quem foi amigo e depois se afastou ( para um posterior reencontro), soube estar no lugar e no momento certo para transformar essa memória feita de palavras num verdadeiro tesouro que a literatura mundial e a Academia Sueca acabaram por reconhecer e consagrar.
Dos vários livros que publicou recordo alguns com saudade, destacando pela sua invulgar qualidade “O Amor em Tempos de Cólera”, de 1985, ou “O General no Seu Labirinto”, de 1989. Porém, o que marcou e marcará para sempre a literatura mundial pela memória que criou à escala mundial é “Cem Anos de Solidão”, verdadeira obra fundadora que continua a abrir-lhe portas e a trazer-lhe sempre inesperados aplausos. Com esse livro, o escritor conseguiu descrever um tempo, um continente e uma cultura com um discurso poderoso e arrebatador.
De Lisboa, que descreveu num texto jornalístico de 1975 como “a maior aldeia do mundo” e onde conheceu Vasco Gonçalves e Ernesto Melo Antunes, guardou Gabriel García Marquez gratas recordações e também a convicção de que o esforço transformador viria a ser premiado, vendo-o “condenado a sentar-se de sapatos rotos e casaco remendado na mesa dos mais ricos do mundo”. E tinha razão. O problema é que a conta só quase quatro décadas depois nos está a ser apresentada para cobrança compulsiva por um governo medíocre e subserviente em relação ao poder político-financeiro de Berlim.
Agora que o vemos partir, recordamos o seu génio narrativo e a sua poderosa e transformadora atenção à realidade, com a certeza de que quem abre os grandes caminhos nunca mais deixará que os tornem inacessíveis e distantes.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4024 de 25 de Abril de 2014

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