Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Vi logo que as eleições iam dar para o torto

Bernardo de Brito e Cunha

PRIMEIRO SINAL. Assim que cheguei à minha assembleia de voto e não vi fila e, logo a seguir, reparei que os elementos da mesa pareciam estar displicentemente sentados a contar moscas – aparentemente ausentes – percebi logo que freguesia era coisa que não abundava. Pior do que isso, era inexistente. Ainda olhei por cima do ombro a tentar perceber se tinha algum seguidor: nada, nem um. E pela solicitude com que fui atendido (aqui já é romance, que sempre fui bem recebido naquela secção de voto…) dava para perceber que não viam gente há um ror de tempo. E foi por aí que tive a primeira noção, que se confirmaria às sete da noite, de que a abstenção seria em grande. Mas nunca com a dimensão que teve. E ainda agora não percebi as razões: praia, rescaldo fortíssimo da final da véspera ou simplesmente, como diria Ricardo Araújo Pereira, é o povo que “não Liga (à) Europa”?

SEGUNDO SINAL. Assim que foram conhecidas as projecções, uma hora depois, aconteceu o impensável: o Partido Socialista, que ganhou as eleições por uns escassos quatro por cento dos votos sobre a coligação do governo, embandeirou em arco e anunciou uma “vitória retumbante”. O Partido Socialista brinca: não esmagou a coligação do governo, ganha por quatro pontos percentuais – e acha que isso é uma vitória retumbante? Claro que surgiu de entre as fileiras do PS gente lúcida que veio depois dizer que as afirmações tinham sido precipitadas. Até o próprio Mário Soares declarou que o resultado do PS nas eleições europeias representou “uma vitória de Pirro”, que “não deveria ter sido aclamada com o entusiasmo com que o seu líder o fez”. Vera Jardim apontou, na rádio, que a vitória com pouca vantagem do PS nas europeias pode levar as legislativas na direcção de um “pântano político”. E outro e outro e outro ainda.

TERCEIRO SINAL. Em função de tudo isto, na última terça-feira, António Costa, anunciou que está disponível para avançar para a liderança do PS e disse que na quarta-feira se reunirá com o secretário-geral do partido, António José Seguro. E acrescentou: “Portugal precisa de uma solução de governo forte que garanta a mudança. Sinto que é meu dever corresponder àquilo que eu lancei e que eu sinto ser aquilo que os socialistas e de muitos cidadãos que não sendo socialistas acham que eu posso e tenho o dever de dar o meu contributo ao país. Estou naturalmente disponível para assumir essa responsabilidade, de liderar essa mudança e garantir um governo sólido em Portugal porque isso é essencial para a mudança que os portugueses disseram muito expressivamente querer” nas eleições europeias, e seria imperdoável para a minha consciência se não estivesse disponível para assumir essa responsabilidade.”

QUARTO SINAL. De imediato surgiram os gritos: que era insensato, que não era oportuno, etc, etc. De acordo com os estatutos do PS, o Congresso Nacional pode reunir extraordinariamente “mediante convocação da Comissão Nacional, do Secretário-Geral, ou da maioria das Comissões Políticas de Federações que representem também a maioria dos membros inscritos no partido”. Tudo isto me deixa confuso: um secretário-geral de um partido vence “esmagadoramente” por quatro pontos e não pode ser substituído? Então com que cara (e estatuto) é que o mesmo secretário-geral pode fazer moções de censura a um governo maioritário sabendo que essa moção está condenada ao fracasso? E, ao menos numa coisa, António Costa tem razão: todos os que sofreram na pele os anos de governação da dupla Passos Coelho-Portas precisam de uma solução de governo forte que garanta a mudança, e não de uma alternativa que nos garanta vitórias de quatro por cento, caramba!

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Na última segunda-feira, a meio da tarde, a 2: exibiu um documentário intitulado “Bem-vindo à Coreia do Norte”. O interesse e estranheza da reportagem devia-se ao facto da equipa de jornalistas de uma estação de televisão holandesa ter conseguido obter uma permissão para viajar na Coreia do Norte, se bem que debaixo da vigilância de três guardas. É certo que tiveram de obedecer a regras (não tentar estabelecer conversação com norte-coreanos, a não ser os “oficiais” e os agentes turísticos postos ao seu dispor), mas o resultado é uma visão desértica de Pyongyang – e de outras zonas do país, que se percorrem por estradas imensas mas por onde não passa qualquer outro veículo ou se vê vivalma –, a não ser os jovens estudantes que preparam manifestações em louvor de Kim Il Sung e descendente. Um documentário dirigido por Peter Tetteroo e que conquistou um Emmy em 2001.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4029 de 30-5-2014

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