José Jorge Letria
Decididamente, Lisboa está na moda como só terá estado na época do 25 de Abril em que por toda a parte víamos e ouvíamos estrangeiros a quererem saber como tinha sido a queda do fascismo em Portugal. Quem viveu essa época por certo não a esqueceu nem esquecerá. Porém, as condições de hoje são particularmente diversas. A curiosidade política é muito inferior, mas o preçário geral é barato e as coisas boas e belas que a capital tem e valoriza estão suficientemente à vista para serem fruídas.
Recordo-me sempre de uma entrevista de um realizador estrangeiro que dizia, no princípio dos anos 70 do século passado, que nunca tinha visto uma cidade onde a relação entre a luz e a cor das casas fosse tão doce e estimulante para a criação. É isso, justamente. E Câmara Municipal sabe-o bem.
Quis a vida profissional proporcionar-me, ao longo de décadas, o conhecimento de muitas cidades pelo mundo, de Tóquio a Caracas, do Rio de Janeiro a Praga, de Seul a Havana. São todas muito diferentes e todas têm o seu charme e o seu poder de atracção e de fidelização. É difícil de explicar, mas fácil de sentir.
Em boa verdade, não houve na cidade transformações profundas que justifiquem este sempre crescente interesse, de resto bem patente no facto de até os paquetes das três rainhas terem feito escala em Lisboa, rumando à Inglaterra de origem. Milhares de pessoas espalhadas pela cidade e arredores terão gasto mais de um milhão de euros num só dia. A autarquia tem preservado bem este património e todos ganhamos com isso.
Estes fenómenos de moda têm sempre causas objectivas e profundas. Uma delas é a forma como publicações de referência destacam, nos tempos que correm, a beleza atractiva e envolvente de Lisboa, somada ao preço irresistível das suas refeições e do seu comércio. E nem é preciso falar de quem faz longas viagens de avião para vir abastecer-se às lojas de excelência da Avenida da Liberdade e a outras nos Restauradores e no Rossio. Esse é outro filme…
Lisboa já aqui mora há muitos anos e tem na prodigiosa herança pombalina um dos trunfos mais fortes do seu poder de atracção. Depois tem muitos outros pólos de interesse, que vão das estreitas ruas dos bairros populares até à monumentalidade dos Jerónimos ou da Torre de Belém, estando tudo isto enquadrado e enriquecido pela vizinhança mágica das águas do Tejo. Nunca é tarde para se descobrir e valorizar esta riqueza de séculos e de muitas gerações.
Com frequência, em reuniões internacionais, encontro quem me diga que o ideal são reuniões em Lisboa, porque a cidade é bela, barata e muito apelativa. Eu trato logo de reforçar a ideia, com a convicção de que a uma cidade bela todos os adjectivos caem o melhor possível.
Para além disso, é forçoso referir o poder de atracção de uma grande rede de hotéis que oferece condições muito favoráveis para a permanência, para a fruição e descoberta. E acrescente-se que não se trata de uma cidade massificada que prive o visitante do prazer de estar e de voltar. De tudo isto vão os apoiantes do Real Madrid e do Atlético de Madrid ter uma visão actualizada quando estiverem na cidade para assistir à final da Liga dos Campeões, mesmo que os forcem a pagar somas exorbitantes por uma noite de hotel com direito a pequeno almoço.
A Lisboa de mouros e judeus, de cruzados, do renascimento e da descoberta, do terramoto e da prodigiosa reconstrução pombalina, do 5 de Outubro e do 25 de Abril perfila-se orgulhosa para tentar olhar o futuro com a imaginação e a esperança de que ninguém a pode privar. A todos merecemos que assim seja. Pelo presente e pelo futuro.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4027 de 16-5-2014

