Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Julho 16th 2019

HERMAN: A DIFÍCIL ARTE DE SER ÚNICO E GRANDE

José Jorge Letria

Herman está a comemorar quatro décadas de carreira artística e autoral, celebrando e fazendo-nos celebrar um percurso único na história do espectáculo e da cultura em Portugal. Que não haja dúvidas a este respeito, já que nunca ninguém levou para o palco e para o estúdio como ele a magia da voz, da criação de personagens, de vozes e de estilos, a espontaneidade e o riso, a poderosa crítica social e moral e a rara capacidade de nos mostrar este país no que tem de mais risível, mais inimitável e mais poderoso.
Recordo-me bem de Herman José quando a sua carreira artística começava. Foi em finais de 1974. Eu estava em estúdio a gravar o LP “Lutar/Vencer”, que sairia para o mercado em 1975, e lembro-me de um jovem magro, de cabelos compridos e calças à boca de sino, num canto do estúdio, com dificuldade em disfarçar uma timidez que não o impedia de fazer rir quem estava junto dele e de criar pequenos mundos a partir da realidade que observava e caricaturava. Era o princípio de uma carreira que rapidamente o levou para o teatro de revista, para os palcos da itinerância musical e depois para a rádio e para a televisão, fazendo dele uma personagem muito maior que todas as que foi inventando e recriando.
Herman começou como bom viola-baixo e nunca deixou de ser um excelente músico, sempre apoiado por executantes e arranjadores de excepção, de Pedro Osório e Thilo Krasman a Pedro Duarte. Depois começou a revelar outros talentos, incluindo o de desenhar, de criar personagens assombrosas- do Esteves ao Nelo da Idália- transformando o estúdio num enorme palco do mundo em que todos nos reinventámos rindo com ele e invejando a sua espantosa capacidade de ser único e nosso.
Hoje, ao comemorar 40 anos de carreira, Herman, artista e autor, não dispõe das condições que tinha há uns anos atrás para fazer grandes “shows” televisivos e para animar a noite lisboeta com as suas aventuras de empresário da restauração. A violência da crise serviu de pretexto para afastar dos ecrãs todos aqueles que, com grande talento criativo, nos faziam rir e obrigavam a pensar. Ficou o circo dos comentadores e dos analistas, que saem muito mais baratos e nos fazem rir muito menos, até porque vão mantendo as suas pequenas carreiras sempre de olhos postos no desejo pessoal de poder. Os artistas ficaram de fora e ganharam os que são apenas “artistas” do óbvio, do previsível e do tristonho, retrato de um país que tem de se rir de alguma coisa para não morrer de angústia.
Herman tem hoje um modesto espaço televisivo em que deixa a marca do seu talento, mas que está muito longe do que lhe é e nos é devido, quando outro vento soprar de feição num futuro que se deseja próximo, com muito menos austeridade e muito mais criatividade e esperança. Da história fazem parte as gratas memórias de “O Tal Canal”, “Hermanias”, “Casino Royal” e tantos outros programas que, em momentos que não esquecemos, também sofreram os efeitos da censura moral e política que resultava de um modo reprovável de pensar a comunicação em Portugal depois do triunfo da democracia e da liberdade. Herman não esqueceu esses momentos, e nós também não.
Ao longo de 40 anos de carreira brilhante e única, Herman fez amizades, gerou grandes invejas e silêncios despeitados, construiu personagens, rostos e vozes e nunca se deixou confundir com os praticantes banais da “stand up comedy” em Portugal, empenhados e trabalhadores mas em regra desprovidos de um talento ofuscante e luminoso como o seu.
Há uns dias, Herman recebeu a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores, instituição de que é membro, e teve a elogiá-lo e à sua carreira duas pessoas que desempenharam um papel importante na sua vida: Nicolau Breyner e Nuno Artur Silva. Ambos sublinharam a excelência de uma obra que não tem par nem consente imitações, as de circunstância e as outras, porque Herman é maior que tudo isso. De resto, Nuno Artur Silva declarou, com pleno sentido de justiça, que Herman foi o verdadeiro 25 de Abril do humor em Portugal. Depois Herman usou o palco para nos recordar que continua no auge de uma carreira absolutamente invulgar, mesmo tendo-se em conta o muito que se faz por esse mundo fora em palcos e estúdios.
E todos estiveram nessa sessão com a convicção de que, aplaudindo, estavam a agradecer a excelência de um percurso interpretativo e criador que nos tornou melhores individual e clectivamente, porque quem ri com inteligência torna o mundo mais humano, mais livre e mais soberano. Quando lhe forem dadas de novo, e sempre a tempo, as condições que merece, poderemos dizer que Portugal reencontrou o melhor de si próprio, projectando no espelho de corpo inteiro tudo aquilo que o tem feito diferente e único. Tal como Herman José, artista absoluto que o esquecimento e a mediocridade nunca atingirão.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4046/47 de 31 de Outubro de 2014

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