Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Novembro 12th 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

O amigo desconhecido da RTP

Bernardo de Brito e Cunha

JÁ O DIZIA e cantava (mais dizia que cantava…) o monegasco Léo Ferré no início dos anos 70, para ser mais exacto em 1972: “Avec le temps tout s’en va”. Ou seja, com o tempo tudo passa, desaparece, se vai. E esta canção que, num breve parêntesis, foi a última que eu e o meu pai partilhámos com gosto, parece corresponder inteiramente à evolução de Nuno Morais Sarmento entre 2003, quando era Ministro da Presidência de Durão Barroso e depois de Santana Lopes, e o momento actual, em que continua a ser advogado mas também comentador da RTP. Há 11 anos, há 10 ou há 9, o Morais Sarmento-Ministro tinha como principal missão na vida, tudo o dava a entender, o acabar com a televisão estatal – no que teria seguidores… Mas sempre com a desculpa de que a RTP era mantida com o dinheiro dos contribuintes e que poucas vergonhas e gastos estapafúrdios nem pensar: com o tempo tudo passou, tudo mudou.

E COMEÇOU, em Fevereiro de 2003, por atacar o programa (saudoso, já agora) “Acontece”. Lembrar-se-ão os que têm idade e memória (à falta desta última eu tenho arquivos) que o ministro da presidência Nuno Morais Sarmento demonstrou o interesse, num exemplo infeliz, de mandar todos os espectadores do “Acontece” numa enorme volta ao mundo – porque saía muito mais barato do que produzir aquele programa. Não entendia, então, o Morais Sarmento-Ministro que um serviço público de televisão não pode ser trocado por viagens ao estrangeiro ou à volta do mundo. Porque, para utilizar o slogan já gasto, o serviço público de televisão tem de ser um “vá para fora cá dentro”, tem de ser o depositar de informações úteis no nosso colo, o de nos pôr a “Aïda” no ecrã sem que tenhamos de nos deslocar ao Scala de Milão, o de trazer a festa do cinema até nós sem nos obrigar ao incómodo dos atropelos de gente de Sunset Boulevard, em Hollywood. Quando Morais Sarmento quis mandar os espectadores numa volta ao mundo, a figura geométrica mais correcta seria “o ministro quer que os espectadores vão dar uma curva”. Morais Sarmento-Ministro era, no fundo, um precursor de Passos Coelho em termos de aconselhamento à emigração.

NÃO ESQUEÇAMOS também que, menos de um ano depois, em Janeiro de 2004, já com o “Acontece” extinto, Morais Sarmento fez uma operação estética à RTP2 que não mudou coisa nenhuma – a não ser o logótipo para “2:”. E de repente surge em cena o Morais Sarmento-comentador que, no fim da última semana, no seu espaço, veio defender a administração da RTP no caso da compra dos direitos de transmissão dos jogos de futebol. Não só defender, como eu também aqui já o fiz, como também de prognosticar (vá lá, já que falamos de futebol) o fim do Conselho Geral Independente da RTP – por ter dado um tiro no pé – criado quando o ministro Miguel Relvas se demitiu e foi substituído por Poiares Maduro. Miguel Relvas, bem o sabemos, queria a privatização de um dos canais públicos da RTP ou até mesmo a venda a retalho do serviço público de televisão o que chegou a fazer parte do programa eleitoral do PSD…

COM O TEMPO, de facto, tudo muda, tudo se esquece, tudo se vai: mas eu não enjeito, de forma alguma, que Morais Sarmento possa mudar de opinião. Tem esse direito. E, a ser assim, até aplaudo. Só lamento que isso tenha acontecido agora, quando ele só tem a sua opinião e não antes, quando tinha poder. Como eu dizia a um amigo: “Quem diria que um homem que fez as tropelias que fez à RTP a venha agora defender…” Mas pergunto-me: será que se Nuno Morais Sarmento fosse hoje o ministro que foi há uma década teria tido a mesma posição de defesa da administração da televisão pública?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«No princípio desta semana foram anunciados alguns aumentos, nomeadamente os das portagens e do gás butano – este último, naturalmente, por causa da famosa subida do preço do barril de petróleo. Como se não fosse bastante o facto de eu estar convencido que o preço do barril até desceu, nas praças internacionais, temos ainda esta história curiosa de uma garrafa de gás da Galp, igualzinha às que se vendem em território pátrio, ser vendida em Espanha a metade do preço. E não é contrabando: são garrafas de gás distribuídas pela própria Galp no país vizinho. Isto é coisa que se perceba? Ou melhor ainda: isto não é coisa que envergonhe qualquer governo, qualquer futura-ex-coligação que se candidata a governar-nos? Apre! E depois vem Santana Lopes dizer que “Irresponsáveis são os que fugiram e incompetentes são os que deixaram o País à beira do pântano”. À beira do pântano, Pedrito, só a Natalie Wood.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

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