Semanário Regionalista Independente
Sábado Maio 28th 2022

“BBC – As Crónicas de TV”

A grande teoria da conspiração

Bernardo de Brito e Cunha

EU SEI que há quem lhes chame coincidências, mas há gente bastante mais douta do que eu que dá outros nomes a coisas que ocorrem praticamente ao mesmo tempo, com uma relação aparente mas sem nada que as interligue. Foi o que aconteceu na noite das eleições gregas, pelo que se impõe uma pequena explicação. Nessa noite aconteceram muitas outras coisas nos diversos canais – e nem sequer estou a falar do “Big Brother” ou lá que coisa é aquela que lhe toma o espaço e o canal – de tal forma que tive de deixar coisas a gravar. Coisas essas que só fui ver depois de ter observado o sorriso rasgado de Yanis Varoufakis ao lidar com os seus congéneres financeiros da Europa. Explicação dada, vamos então ao que vi com algum atraso.

MUITOS, muitos, muitos canais abaixo das habituais televisões especializadas na informação e na notícia – tantos que no meu televisor está para lá do 85 – um canal que se dedica a filmes e séries, o AXN Black, que também o há sem cor, passou naquela noite um filme, realizado por um grego de seu nome Konstantinos Gavras, mas que assina os seus filmes como Costa-Gavras. O filme em questão (e volto a ressalvar que apenas se fala do filme nesta coluna, que não é de cinema, em função da tal coincidência) chama-se “O Capital” e conta a história de um homem que é presidente de um dos mais poderosos bancos franceses. O filme começa com um aparte do (ainda não) presidente: “O dinheiro é um cão que não pede mimos, só quer que lhe atirem a bola cada vez mais longe, para a poder ir buscar indefinidamente.” Pelo meio, as habituais golpadas e tentativas de enriquecimento de todos quantos têm capital investido no banco. Um desses, um americano que gere um fundo de investimento de risco, pretende mesmo deitar o banco abaixo – e o presidente atrás – mas acaba fintado: o presidente é um cínico e um ser desprezível, sem dúvida, mas é bom naquilo que faz. E dá a volta por cima e, sem sequer ter havido necessidade de passar o Phénix Bank a banco bom e banco mau, Marc Tourneuil volta a ser investido como presidente. E depois de anunciar aos accionistas que “Vou ser o vosso Robin dos Bosques: vamos continuar a roubar aos pobres para dar aos ricos”, tem novo aparte para a câmara enquanto os accionistas o aplaudem em delírio: “São crianças. Crianças grandes. E vão continuar a divertir-se. Até que a bolha rebente.”

ISTO É a história, ao mesmo tempo, do BES (só que no caso Marc Tourneuil foi mais esperto que Ricardo Salgado) e dos truques que a Europa tem usado para com a Grécia: tens dívidas, pergunta a Alemanha: não importa, compra lá uns submarinos. Tens uma dívida abismal, diz a França: pas de problème, vou-te mandar uns caças para te entreteres com a Turquia. Felizmente que o novo ministro das finanças, Yanis Varoufakis, deu a conhecer as propostas que a Grécia pretende apresentar: um leque de operações de troca de dívida. O primeiro tipo de obrigações seria para substituir os empréstimos europeus à Grécia, que seriam então trocados por obrigações indexadas ao crescimento nominal da Grécia (crescimento real mais o efeito dos preços no valor do PIB). A proposta, segundo Varoufakis, é uma forma de “engenharia inteligente de dívida” que permitirá aos políticos europeus não usar o termo reestruturação ou perdão de dívida e também não implica uma perda directa e imediata para os contribuintes, o que faria com que fosse mais fácil para os políticos defenderem estas ideias junto dos seus Parlamentos.

DAQUI se pode concluir também que quando Passos Coelho disse que as propostas do novo governo grego eram “brincadeiras de crianças”, não se referia a Varoufakis: pensava certamente nas “crianças grandes que vão continuar a divertir-se”, as do BES, imbróglio que ele ainda tem entre mãos. E que bom seria que ele se empenhasse em descobrir onde anda o dinheiro dos depositantes! Mas atenção: um dia a bolha rebenta, Marc Tourneuil dixit.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Ainda a semana passada aqui falava, de raspão, de Camilo de Oliveira. E como se o próprio programa não fosse bastante, eis que Camilo e esse mesmíssimo programa se tornam, de repente, em notícia do jornal da noite. Onde? Ora onde havia de ser? Na SIC, pois claro. E foi notícia porquê? Porque, dizia a notícia, “Camilo voltou à televisão e o seu programa já é um êxito”. Um êxito?!? Caramba, mas o programa não aparece nos mais vistos! Como diabo descobriu a SIC que o programa é um sucesso? Mistério. Antigamente dizia-se que os publicitários é que eram muito exagerados: pois parece que alguns jornalistas, agora, também o são. Não que o pivot do “Jornal da Noite” seja, naturalmente, o responsável por esta notícia – mas isto não deixa de ser um sinal de que, ao contrário do apregoado (e muito criticado aqui há uns anos à TVI), também a SIC faz notícia dos seus programas.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4057/58 de 6 de Fevereiro de 2015

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