Quando o sexo se torna sem graça
Bernardo de Brito e Cunha
VAMOS falar de sexo? Vamos a isso. Aqui há umas semanas fui surpreendido por um anúncio na SIC (uma autopromoção, para ser mais exacto) composto por um ecrã negro, várias palavras a preto e branco – todas começadas por “S” e a terminar em “O”: SonO, por exempo, ou SonhO – e duas vozes, uma de homem e outra de mulher que tinham um breve diálogo em que essas palavras entravam e que sublinhavam, graficamente, essa conversa. A promoção terminava, de resto, com alguma graça: a última palavra no ecrã era SexO, a voz do homem esboçava, percebia-se, um sorriso e a feminina perguntava: “Estás-te a rir de quê?” Coisa com graça, recursos mínimos e económica. E toda esta coisa engraçada levou-nos onde? A um programa sobre sexo, claro está. Mas sem graça.
PRIMEIRA coisa sem graça: o programa começou no dia 14 de Fevereiro, dia de S. Valentim e/ou dos namorados – exactamente o dia em que os namorados andavam por aí na rambóia e o perderam. Segunda coisa desinteressante e que lhe vai tirar clientela: o programa não é um programa, é um espaço dentro do “Jornal da Noite”, aos sábados. Se querem fazer um programa porque o põem no meio do telejornal? Ah, claro: se fosse um programa e aos sábados, lá se desabituava a clientela da novela “Mar Salgado”. Terceira coisa sem graça: vai durar sete semanas e, a avaliar pelo primeiro, não vai haver quem tenha paciência: vai-se tudo deitar e a teoria que se lixe.
OS JORNALISTAS responsáveis pelo programa são Maria João Ruela, da SIC, e Bernardo Mendonça, do semanário Expresso, que entrevistaram 33 portugueses, homens e mulheres de várias idades, profissões, perfis e orientações sexuais sobre a sua vida e experiência sexual, obtendo (diz a SIC) “testemunhos francos, interessantes, inteligentes e muito variados.” Não me parece verdade: o que vi no primeiro episódio foi o que já vi milhares de vezes: “Temos dias em que nos apetece a toda a hora, e depois temos semanas muito mais calmas.” Mas tem um ponto positivo: nas reportagens de “Vamos Falar de Sexo” todos os entrevistados dão a cara e revelam de forma surpreendente o seu lado mais íntimo, com as mais variadas experiências, opiniões e reflexões sobre cada tema. É um passo em frente naquela história das máscaras e vozes disfarçadas.
OS SETE “episódios” estão divididos por temas, um por semana: “desempenho”, “satisfação”, “adolescentes”, “fidelidade”, “mitos, medos e tabus”, “redes sociais” e “fantasias”. Em cada um deles, ouviremos os discursos de casais e pessoas singulares entrecruzados com opiniões, gostos e percursos sexuais diferentes, e ouviremos também a opinião de sete especialistas: o psiquiatra Francisco Allen Gomes, que já apareceu no primeiro, a sexóloga Marta Crawford, o director do “Sexlab” Pedro Nobre, a sexóloga Gabriela Moita, a psicóloga Patrícia Pascoal e a sexóloga Ana Carvalheira. Esta, parece, é a primeira vez que na televisão e imprensa portuguesa (o programa e o tema também tem espaço na revista “E” do “Expresso”) tantos portugueses dão a cara a falar sobre a sua sexualidade. Sinal dos tempos e das mudanças que estão a ocorrer no país? Talvez. Mas o resultado final parece-me pouco: o anúncio era bem melhor do que o programa…
NÃO POSSO voltar a dizer bem de Herman José, de Vanessa Oliveira ou do “Há Tarde” em geral: acho que já falei dos três umas duas vezes, e basta o que basta. Mas há o outro lado, a outra forma. Há o dizer-vos, com toda a clareza, que sempre que Fátima Lopes me surge no ecrã, corro que nem um possesso à procura do comando – e faço-a desaparecer. O problema é que no dia seguinte ela volta a surgir. Paciência, correrei de novo: é a minha forma de fazer exercício…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Quando a RTP deita mão, nem se percebe bem como, a um espectáculo gravado no Porto dos Gato Fedorento, não se entende que não tire daí todo o partido. Os Gato Fedorento, graça e talento à parte, são um fenómeno de popularidade: para mais, os Gato Fedorento são um produto da concorrência, daí que não entenda a razão por que esse espectáculo “felino” não teve honras de concorrer com programas ditos de humor e que a concorrência passa a seguir ao telejornal da noite. Para minha surpresa, o programa dos Gato Fedorento foi exibido às duas e qualquer coisa da tarde de terça-feira de Carnaval, quando o deveria ter sido no horário nobre. Independentemente, repito, do talento e da graça do grupo, e baseado tão-só na popularidade de que goza neste momento – que levou inclusivamente a que um dos números fosse adaptado para anúncio de televisão, e todos sabemos qual é.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4060 de 20 de Fevereiro de 2015

