Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Os cofres, os VIPs e os sumos

Bernardo de Brito e Cunha

NO COMENTÁRIO semanal de domingo, o professor Marcelo Rebelo de Sousa disse que as declarações de Maria Luís Albuquerque a falar dos “cofres cheios” do Estado não foram bem recebidas e que foram infelizes. Acrescentou Marcelo que Maria Luís Albuquerque tem desculpa: “A ministra ainda não tem dois anos de política. Só em Portugal é que se chega a estes cargos com tão pouca experiência.” Ainda assim, as palavras da Ministra sobre a “folga” financeira dos cofres públicos foram vistas como uma declaração “que não saiu bem”: “Às vezes as pessoas ‘excitam-se’ no contexto partidário e falam um bocadinho de mais”, concluiu o comentador. Parece-me que a análise de Marcelo podia ter ido um pouco mais longe, no sentido de esmiuçar de que cofres falava a ministra: se se tratava de dois porquinhos de barro cheios de trocos, ah! então é mijarete. Mas se a coisa se referia, pelo contrário, a contentores cheios de notas, então há aqui uma falta de visão óbvia. O povo português, nomeadamente aqueles que se viram sem subsídio de desemprego e sem trabalho; os que viram os serviços de saúde diminuírem rapidamente de qualidade, por falta de médicos e profissionais de saúde; os alunos que viram as suas aulas começarem tarde por falta de professores ou inadequação de instalações, etc., etc., esses portugueses, que contribuíram largamente para o encher desses contentores, deviam gostar de ver o fruto da sua inactividade – mais uma peculiaridade do bom aluno português. E o potencial turístico dos contentores, como qualquer outro museu, é uma coisa que não pode ser encarada como despicienda.

MAS Marcelo Rebelo de Sousa, que também se debruçou sobre o caso da Lista VIP, não quer acreditar que a Autoridade Tributária tenha criado uma lista para proteger alguns contribuintes de destaque. Só disse, mais para diante, o que muita gente já disse: que a AT não criaria uma tal lista sem o conhecimento do poder político. No espaço de comentário do “Jornal das 8”, o comentador disse que “há razões para desconfiar da máquina fiscal” num caso “muito grave”. “Haja ou não lista, é impensável que a máquina fiscal tome iniciativas para alterar o sistema sem conhecimento do poder legislativo” disse o professor, clarificando que “a mudança do sistema de acesso é protegida por lei”. Para Marcelo, Paulo Núncio “perdeu toda a credibilidade” e ficando ou não no governo “vale zero em termos de autoridade política”. E, realmente, não se percebe por que ainda se mantém em funções, sobretudo depois de dois directores da AT se terem demitido. Porque tinham vergonha na cara? É bem possível.

NINGUÉM que siga a novela “Mar Salgado” deixou de reparar na presença de uma marca de sumos, em grande parte provenientes do pomar de “Sara”. O Serviço Soft Sponsoring Report da MediaMonitor da Marktest revelou que a marca em causa registou entre Janeiro e Fevereiro deste ano – período que nem sequer foi o mais “violento” – uma exposição superior a 2 minutos na novela da SIC. Essa exposição correspondeu a um retorno superior a 150 000 euros, a preço de tabela. Só no dia 24 de Fevereiro a exposição da marca em causa foi de 23 segundos, fazendo com que 1 729 100 pessoas contactassem com a marca nesse âmbito. Em alguns programas de televisão é possível assistir à presença de marcas. Nuns casos, o produto e a marca são apenas visíveis, noutros os apresentadores ou actores falam sobre as marcas ou interagem com elas – é o caso desta novela. O estudo Soft Sponsoring Recall, da Direcção de Estudos Publicitários da Marktest, permite avaliar como é que a presença das marcas em programas de televisão é recordada. Aos residentes em Portugal Continental com idades compreendidas entre os 15 e os 74 anos foi colocada a pergunta: “Em que programas de televisão recorda ter visto ou ouvido publicidade a marcas durante a sua exibição?”. No conjunto dos dois primeiros meses deste ano, cerca de 30% refere recordar ter visto marcas em pelo menos um programa de televisão. Se aos sumos acrescentarmos, os champôs, os produtos para a pele, os kits para pintar o cabelo e as conservas de peixe, entre outros, quase se pode dizer que resta pouco tempo para o desenrolar da novela…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«E falo de Isabel Pires de Lima porquê? Por ter publicado diversos livros e ter sido júri de vários prémios literários? Não. Por ser doutorada em Literatura Portuguesa, licenciada em Filologia Românica e professora associada, com agregação, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto? Também não. Então será por, na anterior legislatura ter sido membro da Comissão Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura? Negativo. Então dever-se-á esta referência ao facto de ter sido militante do PCP entre 1976 e 1991 e ter sido eleita deputada nas listas do PS em 1999, como independente? Ora também não. Acabe-se de vez com o suspense: esta referência surge porque Isabel Pires de Lima é uma especialista em Eça de Queirós – e isto, até ver, não me parece mau sinal para quem carrega a pasta da Cultura.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4065 de 27 de Março de 2015

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