Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Agosto 8th 2022

“BBC – As Crónicas de TV”

Desgraças da televisão – e do país

Bernardo de Brito e Cunha

A NOVELA angolana “Jikulumessu” desapareceu das grelhas da RTP desde sexta-feira depois de apenas três semanas no ar. A sua equipa e alguns espectadores interpretaram essa ausência como um cancelamento mas a RTP já disse que o programa vai voltar ao ar, mas noutro horário – no late night, depois das 01h30. A novela tem 120 episódios mas pouco mais de uma dezena foi até agora exibida devido a programação especial (festas de Lisboa ou jogos da selecção de futebol, por exemplo) no horário previsto – de terça a sexta no horário nobre da RTP 1. No final da semana passada, “Jikulumessu” desapareceu da grelha não só do dia, mas também do site da RTP onde se projecta a programação para as semanas seguintes. E para quarta-feira passada, quando a novela deveria regressar ao horário nobre, depois das 22h, surge na grelha a estreia do programa que o vai substituir, “Agora a Sério”, uma sitcom sobre jornalistas desenvolvida pela Academia RTP.

ACONTECEM sempre estas coisas quando há mudanças da Direcção de Programas de uma estação de televisão. É certo que, para nós, a novela tem um nome quase impronunciável mas a verdade é que o produto vinha rodeado de algumas características que poderiam ter jogado a seu favor: recorde-se que a novela foi produzida pela Semba Comunicação, ligada à família do Presidente angolano José Eduardo dos Santos, estreou no início do ano na televisão angolana (TPA), que transmitiu o último capítulo em Abril. A novela foi notícia quando um beijo entre dois homens levou à sua suspensão da antena em Angola durante três dias. Mas elementos técnicos e actores ligados à novela acusam a RTP de não ter tratado o produto convenientemente, de não o ter promovido (o que teria ajudado à fidelização de público), de nunca o ter exibido num horário constante e, finalmente, que o ir passar, agora, depois do “Cinco para a Meia-Noite” e “Dexter” é colocá-lo num horário que não existe, um horário de ninguém.

UMA DAS ACTRIZES do projecto, Marta Faial, lamentou no Facebook com “muita tristeza” a decisão de um eventual cancelamento da estação pública, criticando também as “constantes mudanças de horário” e “falta de promoção” da novela. A mesma actriz, que interpreta a personagem Bianca na novela centrada em dois momentos da vida de um jovem angolano, Joel Kapala, retomou a questão das audiências da novela no mesmo post na rede social: “Foram só entre 100 mil e 240 mil espectadores que seguiram “Jikulumessu”, detalhou, criticando ainda que “isso não chegue para um canal que diz não ter interesse nas audiências mas sim na qualidade”.

“JIKULUMESSU” foi uma herança da anterior direcção de programas e, curiosamente, na altura da sua estreia, o novo director de programas da RTP, Daniel Deusdado, avisava já que a estação pública não tinha mais planos para qualquer projecto de ficção angolana. Mas elogiava “um conteúdo alternativo, lusófono e representativo da capacidade de produção nacional e angolana” e acreditava que “Jikulumessu” iria “atravessar bem o Verão e fidelizar público que gosta de histórias fora do mainstream existente nos outros canais”.

SEGUNDO a reportagem de Alexandra Borges, exibida na TVI esta semana, Portugal é dos únicos países da Europa que não aproveita o plasma seguro dos seus dadores benévolos, anónimos e voluntários. A maior parte do plasma dos nossos dadores acaba no lixo e depois o país gasta milhões a comprar plasma de dadores estrangeiros à Octapharma – a empresa a que José Sócrates esteve ligado. Quem ganha é a indústria farmacêutica, quem perde são os doentes, os dadores e o país. Neste negócio de milhões, o país gasta dinheiro a comprar, desperdiça o plasma doado, que é um bem escasso e muito valorizado, e ainda gasta para destruir esse plasma, pagando milhares de euros a empresas de resíduos hospitalares para o fazer. E Alexandra Borges, entre muitas outras, deixa a pergunta: porque é que há mais de 20 anos que Portugal não consegue aproveitar o plasma dos seus dadores? E eu acrescento: que raio de secretário de Estado Adjunto da Saúde é Leal da Costa, que não elucida quem lhe faz perguntas? E depois o Quaresma é que é cigano? E o burro sou eu?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Álvaro Cunhal, o líder histórico e carismático do Partido Comunista Português, marxista-leninista ortodoxo, morreu na madrugada de segunda-feira, aos 91 anos. Nunca exerceu o poder e o seu pensamento radical e inflexível desencadeou as opiniões mais acesas e díspares. No entanto, as reacções foram unânimes e todos reconheceram o seu mérito, não só como lutador incansável contra o regime ditatorial que governou Portugal entre 1926 e 1974, mas também como escritor e artista plástico. Nunca vacilou, nunca denunciou nada nem ninguém. Na prisão, aproveitou para estudar, traduzir para português clássicos da literatura europeia, escrever e pintar. “Quando se tem um ideal, o mundo é grande em qualquer parte,” afirmaria mais tarde. Em 1960 protagonizou uma famosa fuga da prisão mais vigiada do país, a de Peniche.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sitra, ed. 4076/77 de 19 de Junho de 2015

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