Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Agosto 8th 2022

“BBC – As Crónicas de TV”

Como as televisões se empenham na mentira

Bernardo de Brito e Cunha

POR CÁ TEMOS a ERC, na Grécia existe a ESR, mas a diferença é grande em termos práticos. É que na sequência das cerca de três mil queixas recebidas pelo regulador da rádio e televisão grega, as televisões foram notificadas para entregarem os dados sobre a presença de defensores do Sim e do Não na sua antena, na altura que antecedeu o referendo convocado por Tsipras. As redes privadas SKAI e ANT1 admitem ter convidado 65% de figuras do Sim e 35% do Não. A MEGA TV, que esteve na origem de muitas das queixas, recusou-se a entregar dados. O Conselho Nacional para a Rádio e Televisão (a tal ESR) irá ainda conferir a exactidão dos dados entregues pelos canais televisivos, que dizem respeito apenas ao período entre 29 de Junho e 3 de Julho e só contabilizam o número de presenças, não o tom das notícias nem o espaço concedido aos que apelavam à abstenção e ao voto nulo.Foto 1

DAS SEIS principais estações, apenas a MEGA TV, notificada duas vezes pelo regulador, disse ser impossível recolher esses dados. Esta estação televisiva destacou-se na campanha de terror na semana do referendo, transmitindo inclusive uma fotografia tirada na África do Sul em 2012, com uma idosa a proteger uma amiga enquanto estava no multibanco, como tendo sido tirada o próprio dia na Grécia. Foto 2A crer na fiabilidade dos dados entregues, o prémio para o equilíbrio vai para a estação pública ERT, onde o OXI levou vantagem sobre o Sim por 53.3% a 46.7%. Na privada Star a diferença também foi mínima, 53.6% contra 46.4% a favor do Sim. Segue-se a privada Alpha, com 56% a 44% a favor do Não.

OS CASOS mais evidentes de parcialidade são os da Ant-1, que viu um carro de exteriores incendiado na noite de votação no parlamento grego, com quase dois terços dos convidados a defenderem o Sim (64.8% a 35.2%). Na Skai, onde havia jornalistas que choravam só de imaginar a vitória do OXI, o panorama foi semelhante, com a vantagem dos defensores do Sim na programação a atingir os 64.1% contra 35.9% do Não.

MAS TAMBÉM a esmagadora maioria dos jornais e televisões privadas da Grécia, detidos por grupos ligados à oligarquia que tem dominado a finança do país, fez abertamente campanha pelo ‘Sim’. O diário Star publicou há uma semana na primeira página a foto de um pensionista grego em lágrimas por causa do controlo de capitais. Na realidade, este “pensionista” grego não passa de uma vítima (turca) do terramoto na Turquia em 1999, agora recuperado para mostrar ao povo grego o suposto desespero da terceira idade à porta dos bancos.Foto 3

SE DURANTE a semana que antecedeu o referendo, as televisões criaram o clima da “corrida aos bancos”, com directos intermináveis junto às caixas multibancos (filmando mesmo jornalistas estrangeiros…) até que de facto as filas se começassem a formar por gente preocupada com o que via na TV, isso não bastou para alguns canais. Uma das imagens mais impressionantes foi a da idosa a proteger a amiga de olhares curiosos sobre o pin de multibanco por parte da suposta multidão na fila para levantar dinheiro. Mas na verdade, a foto era de 2012 (e tirada na África do Sul) e o original mostrava que não havia mais ninguém próximo da caixa…

E AS TELEVISÕES portuguesas mostraram isto? Apenas um canal de informação e muito fugazmente…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«A fórmula do Contra-Informação resultou e acabou por se “desdobrar” em alguns “derivados” como o Contra-Culinária (as receitas destes famosos, que deu origem a um saboroso livro), o Bar da Liga (as verdadeiras tricas do mundo do desporto) e o Contra-Zapping. Também a Selecção Nacional de Futebol tem sido perseguida por sketches ao longo de todo o ano.
E é por estes nove anos de história e de sucesso, de criação de bonecos e gags notáveis, que não se percebe por que razão o programa de aniversário do Contra foi uma festa para os “socialites” convidados e não, por exemplo, um “Contra Especial”. Um programa onde pudéssemos ter voltado a encontrar os bonecos de Luís Filipe Menezes e Marques Mendes, José Sócrates ou Mourinho. E quem diz estes, poderia nomear umas boas dezenas.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4082/83 de 31 de Julho de 2015

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