Semanário Regionalista Independente
Domingo Abril 19th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Equilíbrios mais ou menos instáveis

Bernardo de Brito e Cunha

CONFESSO que me tenho divertido “un rato”, como diriam os espanhóis (e com algumas conotações ao Rato, com maiúscula) com as negociações feitas pela coligação PSD/CDS para formar governo. Como é sabido, o Presidente da República chamou Passos Coelho – e só depois todos os restantes partidos, embora soubesse que estes, todos juntos, valiam mais do que a dupla P(assos) & P(ortas) – e pediu-lhe que arranjasse uma solução para formar um governo estável. Presente envenenado? Talvez, um bocadinho: o nosso Aníbal (“nosso” porque ele disse que era Presidente de todos nós, embora nem sempre tenha cumprido essa intenção à letra…) sabia bem que a coligação, para chegar a essa coisa que é um governo estável, teria de se aproximar (o meu pai diria “aprochegar”) do Partido Socialista – e preparar-se para fazer cedências.

MAS CEDÊNCIAS em relação a quê, se durante a campanha a coligação não mostrara, para os próximos quatro anos, senão umas pequenas medidas (promessas?) avulsas? Ora, precisando do PS, como é possível que P&P, depois de uma ou duas rondas venham dizer “o PS que mande a lista do que quer” – quando deveria ser rigorosamente o contrário? E a minha diversão tem sido o ar de gozo de António Costa, quase a escangalhar-se de riso, a dizer coisas como “A situação está num impasse, a coligação não quer assumir que, tendo perdido a maioria, tem que virar a página e mudar a política de austeridade” ou ainda “a coligação não pode querer continuar a comportar-se como se nada tivesse acontecido”. E vai-se rindo, porque tem parecido mais fácil encontrar alinhamentos mais simpáticos (e fáceis) à sua esquerda. Mas disse mais: o líder do PS reafirmou a intenção de fazer mais do que adocicar a política da coligação, rejeitando que as propostas do PS sejam assim uma “espécie de bolas de Natal que vão enfeitar o programa da coligação”. António Costa disse estar convencido de que “quem votou no PS não votou para o PS viabilizar as políticas da coligação”. E tudo isto vamos nós acompanhando pela televisão, um pouco como dizia o Sérgio Godinho: “a liberdade está a passar por aqui”.

CHEGOU AO FIM o programa de Bruno Nogueira na SIC, “Som de Cristal”. E se Bruno é, tantas vezes!, irreverente também desta deixou nos nove episódios, aqui e ali, um toquezinho dessa irreverência. Fez bem: fez com que os convidados se sentissem mais à vontade. E Bruno Nogueira fez ainda outra coisa que me deixou satisfeito: fez uma separação das águas entre aquilo que se pode considerar a música popular e a música pimba. E assim deixou de fora dos nove convidados nomes como Emanuel (pimba até dizer chega) e a família Carreira (pimbas disfarçados ou com upgrade). Foi muito bem feita, essa separação. E o programa, que aqui disse ser para ver nas entrelinhas, teve um resultado muito bom.

ACHEI TOTALMENTE desastrosa a entrevista de Judite de Sousa a Maria de Belém, que por estes dias anunciou a sua candidatura a Presidente da República. O que valeu a Judite foi Maria de Belém ser uma senhora, que aquela técnica de interromper constantemente o entrevistado só mereceria a famosa resposta do General Cambronne. Parece-me que todas aquelas interrupções se devem a falta de preparação da entrevista: se se deixa falar a pessoa à nossa frente, pode ser que a conversa mude de rumo – e fiquemos sem perguntas para lhe fazer. Muito fraquinha, mesmo.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«O filme “O Pátio das Cantigas” foi passado na RTP 1 no último domingo, antes dos resultados eleitorais, assim como que para desanuviar o ambiente e para que todos pudéssemos soltar umas gargalhadas libertadoras do stress. Todos, digo bem: mesmo aqueles que têm dificuldades auditivas – e até para os que não têm, que o som do filme, que ainda não viu o formato DVD, está uma lástima, ao fim de 60 e tal anos. A pensar em todos, portanto, a RTP anunciou que o filme teria legendagem em teletexto, o que, sensivelmente a meio do filme, ainda não tinha acontecido: o famoso “887” no canto superior direito só apareceria mais tarde. Perderam assim os espectadores diversos “Ó Evaristo, tens cá disto?” ou a monumental deixa de Vasco Santana “Pára e escuta, flor do meu martírio: perdoa se não encaro de frente o teu rosto, mas fenece-me a coragem…”»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4091/91 de 16 de Outubro de 2015

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