Semanário Regionalista Independente
Domingo Novembro 17th 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

A rapariga que gosta de brincar com o fogo

Bernardo de Brito e Cunha

ANA LEAL foi a jornalista que na manhã de 26 de Abril de 2013 foi suspensa e impedida de entrar nas instalações da TVI enquanto decorria o processo disciplinar de que estava a ser alvo. Na base desse processo estava um pedido de esclarecimentos enviado por Ana Leal ao director de Informação, José Alberto Carvalho, e ao Conselho de Redacção da TVI acerca de uma peça jornalística sobre o Sistema Integrado de redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), que estaria incluída no alinhamento de “Jornal das 8” de 26 de Janeiro, mas que acabou por não ser exibida nesse dia. Ao que se soube foi Judite de Sousa que decidiu não transmitir a peça.

RESOLVIDO o problema, nova contrariedade: um processo disciplinar instaurado à repórter da TVI pela Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), em 2015. O processo surgiu no seguimento de uma queixa apresentada por mais de uma dezena de unidades públicas hospitalares de norte a sul do País, por possível violação do Estatuto do Jornalista, no que se refere à recolha de imagens e sons com o recurso a meios não autorizados, as chamadas câmaras ocultas. A Comissão da Carteira viria depois a dizer que “não havia violação de nenhuma norma. As imagens preservavam a integridade dos doentes e mostravam uma realidade de interesse público”. Em causa estava então a reportagem “1 hora e 35 minutos”, da autoria da jornalista e emitida a 13 de Abril na TVI, sobre a falta de condições nas urgências. Durante um mês, a equipa de reportagem infiltrou-se em 15 hospitais portugueses e recolheu imagens com uma câmara oculta. O Ministério da Saúde não comentou, na altura, o arquivamento do processo pela CCPJ, mas adiantou que as queixas seguiram para outras instâncias reguladoras e judiciais, como o Ministério Público.

NÃO TEM TIDO, portanto, uma vida monótona: basta recordar a (longa) série de reportagens sobre as vítimas das praxes na Praia do Meco. Não contente decidiu ir “visitar” o mundo das Teste¬munhas de Jeová, numa reportagem exibida esta semana. A bem dizer, o que Ana Leal fez foi visitar o mundo das ex-Testemunhas – José Carlos Malato incluído – pois foram os únicos que falaram acerca dos meandros da organização. As TJ são cerca de 50 mil em Portugal e oito milhões em todo o mundo. Vivem quase exclusivamente em função da religião, num mundo secreto em que ainda funciona uma espécie de tribunal eclesiástico que se pretende superiorizar (e até ignorar) aos tribunais civis. Mesmo que se tratem de crimes de pedofilia (o que, ficou a saber-se, não é de todo nada episódico), tudo deve ser resolvido dentro da organização. Esta investigação da TVI mostrou como se ocultaram e omitiram crimes ao longo de décadas, e que continuam a acontecer. A estação ainda tentou ouvir a organização Testemunhas de Jeová sobre todas estas acusações, mas (oh, imagine-se!) declinaram o convite.

DEPOIS DE TER ganhado na noite de estreia, a 11 de Outubro, o episódio do “The Voice Portugal” deste domingo voltou a conquistar o público. Áurea, Anselmo Ralph, Marisa Liz e Mickael Carreira – os mentores –, somam e seguem na RTP. O programa de procura de talentos, apresentado por Catarina Furtado e Vasco Palmeirim ganhou mais uma vez à TVI, que à mesma hora apresentava o programa “A Quinta”, com 1 milhão e 225 mil espectadores contra 1 milhão e 83 mil que assistiram ao reality show. Já o concurso da SIC, “Peso Pesado Teen”, ficou em 11º lugar no top dos programas mais vistos do dia. Com 6,9% de rating e 16,1% de share, o formato conduzido por Bárbara Guimarães alcançou 655 mil espectadores, mas não parece estar a cativar audiên¬cias.

HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Que me perdoem os muito apegados a estas coisas, mas eu não vejo grande diferença entre a “maravilhosa história de amor” de Pedro e Inês, agora passada a série, e a paixão assolapada entre Carlos de Inglaterra e Camila Parker-Bowles, agora uma senhora casada e até elevada a Condessa da Cornualha. Não vejo diferença? Inês deveria seria bem mais agradável à vista do que Camila. Mas tirando essa diferença – que não é assim tão pouca coisa como isso – a maior das nossas histórias de amor não passa de uma história de infidelidade por parte de Pedro para com Constança que, depois desta morta, o príncipe, tal como Carlos, se encarregaria de reparar. A série, que foi escrita pelo crónico Moita Flores, põe na boca de Pedro (Pedro Laginha) esta pérola: “O povo está feliz com o meu casamento, a corte está feliz, o qu’é qu’interessa que eu me sinta o mais desgraçado dos homens?” Parece-me que Laginha deixou escapar uma frase do século XIV com aliterações do nosso século XXI.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4092 de 23 de Outubro de 2015

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