Trocas e baldrocas e o disco é o mesmo
Bernardo de Brito e Cunha
NÃO SE PERCEBE bem esta coisa de se mudarem os nomes aos programas – sobretudo se eles continuam na mesma. Falo do “Só Visto” que, passou a ser “Sociedade Recreativa” e com as mesmíssimas rubricas, excepto com algumas apresentadoras a menos, infelizmente Joana Teles entre elas. Mas que programa muda de nome sem mudar rigorosamente mais nada? Isto deixa-me confundido – e sem margem de confiança nesta direcção de programas. Veja-se o caso da RTP Informação: a própria informação ficou tão pior desde a mudança, ao minuto zero do dia 5 de Outubro, que as cabeças pensantes decidiram não mudar os nomes aos programas, mas optar, ao invés e radicalmente, por alterar o próprio nome do canal. É que assim já se percebe a coisa: “Ah deixou de ser Informação? Está tudo explicado!”. Agora mudar o nome de um programa e deixá-lo ficar tal qual era parece-me que é um bocado a mesma coisa que mudar o blusão e deixar ficar a mesma camisinha suja de duas semanas. Feitios!
SE NÃO ESTOU em erro, na data em que escrevo (dia 3), o actor e apresentador Fernando Mendes comemora o seu décimo terceiro aniversário na condução de um dos formatos mais acarinhados pelo público português, “O Preço Certo”. Luiz Andrade, antigo director de programas da RTP e realizador de programas que marcaram a televisão em Portugal reconheceu recentemente o talento do humorista e o sucesso internacional que o formato tem junto do público: “É um grande concurso em qualquer parte do mundo e neste momento está na mão de um grande homem da comunicação que é o Fernando Mendes.”
FERNANDO MENDES é um dos principais rostos da RTP e está actualmente a negociar a renovação de contrato. Face à atenção das privadas – SIC e TVI – a estação pública não deverá arriscar abrir mão do apresentador. Ao que consta as negociações estão já avançadas sendo que a perspectiva é a de que possa ser concluída em breve a renovação. Desta forma, cabe aos restantes canais generalistas estarem atentos ao processo, apesar de o mais provável ser Fernando Mendes continuar a ser o rosto de “O Preço Certo”. Recorde-se que este é um dos programas com maior longevidade e de maior sucesso a nível audiométrico da RTP.
ESTE FOI um programa pelo qual passaram diversos apresentadores, cada um deles carismático e marcando o programa à sua maneira, mas a verdade é que nenhum deles se compara ao que Fernando Mendes fez pelo formato. Basta ver os números, de anos e de emissões, e ter visto apenas um programa para se perceber que Fernando Mendes é, como se costuma dizer em linguagem popular, “outra loiça” ou a chamada “força da natureza”. A sua capacidade de improviso, presente em todas as emissões, é notável. A forma como arrasta o público e o faz estar permanentemente consigo é impressionante. E este programa, que já fez com que Pinto Balsemão se tenha, primeiro, insurgido contra ele por não o considerar serviço público e, depois, tenha vindo a cobiçar o formato para a sua própria estação, está obviamente nas mãos certas. E para perceber o que é um verdadeiro sucesso popular bastava ter visto o que Fernando Mendes fez durante quase duas horas e meia, há coisa de um ano: arrastar (salvo seja) até ao Pavilhão Multiusos de Fafe duas mil pessoas e fazer, ao vivo, um concurso que transformou num programa (também) musical. Esta longevidade é notável em televisão. E, neste caso, concordo e apoio a administração da RTP em querer mantê-lo na estação e no programa. Porque dois “Preços Certos” feitos por Fernando Mendes nunca são iguais – nem precisam que lhes mudem o título…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«A melhor programação de cinema está na televisão por cabo – não, não é nenhum desses canais a pagar, é completamente grátis, isto é: faz parte do pacote básico – e chama-se Hollywood. O nome é bom, naturalmente, mas o logo já foi melhor – quando era apenas um “h” e não a palavra completa, ficava muito mais discreto e tapava muito menos filme. Acho que não se pode ter tudo, não é? De qualquer forma, mesmo afastando a hipótese daquele canal para o qual convidaram o maestro Victorino d’Almeida para fazer um anúncio – aquele em que ele diz que, por aquele preço, não se podia esperar grande coisa e que foi, talvez, o único anúncio honesto dos últimos tempos – os outros canais têm uma programação de filmes miserável. O canal 1, de tempos a tempos, afoita-se a uma coisa de jeito – mas, ao fim de tantos anos de “arte e porrada”, como lhes chamava o meu amigo Manel, quem quer ver um filme decente? Para uma programação equilibrada, já se sabe qual a escolha a fazer.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4093/94 de 6 de Novembro de 2015

