José Jorge Letria
Muitos são os que hoje falam e escrevem sobre o ano de 1975, embora o não tenham vivido com a intensidade que esse tempo exigia ou tendo dessa experiência uma memória muito difusa e fugaz, sobretudo quando se trata de recordar os grandes conflitos e tensões que dividiram a socie¬dade portuguesa e a deixaram à beira de uma guerra civil.
Guardo uma memória muito viva dessa época porque fui jornalista do jornal “República”, quase até ao início do conflito político e de organização que envolveu aquele vespertino em que trabalhei desde 1972, e depois trabalhei no “Diário de Notícias “ como editor de Política Nacional até ao 25 de Novembro, data em que foi saneado, com base na acusação absurda de estar envolvido em acções conspirativas de carácter revolucionário. Comigo foram saedados outros jornalistas comunistas como Luís de Barros, director, José Saramago, director-adjunto, ou Miguel Serrano. Com o primeiro e com o terceiro, e com vários outros, estive envolvido, a partir de 10 de Janeiro de 1976, na fundação do matutino “o diário”, jornal assumidamente criado e mantido pela estrutura do PCP, embora tivesse a missão e objectivo de, sendo uma publicação unitária, de alargar a sua influência às camadas mais largas de população, objectivo que o seu sectarismo editorial impediu que fosse objectivamente atingido, para tanto tendo contribuído também a forma como foi atacado o Primeiro-Ministro Sá Carneiro e a sua gestão. Os ataques não eram politicamente injustos, nada disso, mas sim a linguagem e o argumentário que lhe serviu de base.
Em 1975 vivi horas de grande tensão e incerteza, estive com o Presidente Costa Gomes, no início de Outubro, na Polónia e na União Soviética e tive a oportunidade visitar o campo de concentração de Auschwitz, memória que não só não se apagou como se intensificou e que me levou, ao longo dos anos, a visitar outros campos de concentração, de Terezin a Bergen-Belsen, sempre com a ideia muito precisa e inadiável de que era urgente e inadiável partilhar essa memória do horror e da cidadania revoltada. Sendo cantor-autor mobilizado para os grandes combates políticos da época, estive nesse Outono no 1º Festical da Canção Política de Helsínquia, que homenageou Malvina Reynolds e fui sentindo, de semana par semana, que a tensão política, militar, social e cultura nos colocava à beira de um confronto militar e político de consequências absolutamente imprevisíveis. Felizmente, o bom senso de Francisco da Costa Gomes, de Ernesto Melo Antunes, de muitos outros militares e do próprio Álvaro Cunhal evitou que o conflito degenerasse numa guerra sangrenta e fratricida. Estivemos perto e eu recordo-me bem dessa época e dessa quase inevitabili¬da¬de, porque era uma activo militante comunista e porque estava ligado a pessoas e organizações que em cada dia passado tentavam assegurar a manutenção e o reforço do muito que Abril permitiu ao povo conquistar e consolidar. Não me arrependo de nada do que vivi nesse tempo, nem mesmo quando o meu destino foi, como aconteceu com muitas centenas de militantes de esquerda, o do desemprego e do afastamento de todas as estruturas de decisão e opinião em que nosso contributo poderia ter sido dominante e até decisivo.
Os 12 anos passados na redacção de “o diário”, com contacto regular com Álvaro Cunhal, não me levaram a renegar nenhum aspecto das opções de fundo da minhas vida e que vinham, como jornalista e cantor, com José Afonso e alguns mais de antes do 25 de Abril. Foi essa a minha vida, o meu percurso, a minha opção e o meu combate.
Por isso vejo hoje com emoção e intensa expectativa o processo de aproximação entre as forças de esquerda que, a nível parlamentar estão a mudar a história da vida política portuguesa e a abrir caminho para opções estratégicas que o esforço colectivo deve tornar sustentáveis e duráveis. Todos merecemos que assim venha a acontecer.
Nestas semanas de debate e de trabalho convergente não esqueço que foram estas duras décadas de desencontro e de diver¬gência ideológica e política e a impossibili¬dade efectiva de construção de um modelo de governação que afaste a direita da primeira linha de decisão estratégica e da destruição das realizações essenciais do regime que o 25 de Abril de 1974 viabilizou e veio inscrever no nosso texto constitucional.
Desligado do PC desde Agosto de 1991, vim as assumir responsabilidades no PS, designadamente como vereador da Cultura da Câmara de Cascais entre 1994 e 2002 e também membro do Secretariado da FAUL do PS, o que me deu o ensejo de verificar até que ponto no espírito e na memória cívica dos socialistas estavam reservas profundas em relação aos ex-comunistas, ao seu passado e à sua estrutura ideológica. Nunca acreditei que essa barreira viesse a ser um dia ultrapassada e algumas vezes tive ouvir referências às horas passadas na Fonte Luminosa, recordando eu as muitas horas que vivi e vivemos a combater a ditadura para tornar possívelo derrube da ditadura nesse mágico mês de Abril de 197, momento em que todos acreditámos que era possível sermos felizes com o coração aberto à esperança e ao sonho.
Para trás ficou o que deveria e deverá ficar pa¬ra trás, em nome de Abril e do povo por¬tuguês, sem a repetida e violenta destruição de muito o que de bom e perene foi cons¬truído e que o ultra-liberalismo de uma direita ambiciosa e bem apoiadas por Bruxelas quase destruiu no mapa da nossa memória e das nossas.
Hoje, socialistas, comunistas e as forças que construíram o Bloco de Esquerda estão unidas num projecto comum que nos devolveu visibilidade e credibilidade na esfera internacional a par das reservas e dúvidas que sempre fustigam e penalizam que muda. É assim que a História se constrói, se muda e coloca ao serviço dos que menos têm e que mais precisem.
Sou dos que, tendo guardado o fogo da emoção e do sonho dos dias de 1975, sabem que estão a viver raros momentos históricos que não prescrevem e que devem ser preser¬vados para poderem ser merecidos. Reen¬contro hoje muitos dos que comigo viveram uma parte dessa História e sei que, quando falamos de 1975, falamos das História que ainda falta cumprir e que eu espero que dê a Portugal o muito que Portugal merece e que os últimos quatro anos quase converteram em ruína e desistência. Por isso, voltar a falar de 1975 é falar daquilo que em parte nos faltou ser e fazer para falar de futuro com a esperança da alegria, coisa que não prescreve quando o coração bate do certo.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4095/96 de 20 de Novembro de 2015

