Semanário Regionalista Independente
Domingo Agosto 14th 2022

“BBC – As Crónicas de TV”

Sócrates, a sequela: o animal feroz regressa

Bernardo de Brito e Cunha

HÁ COISAS que eu percebo muito bem. Percebo, nomeadamente, que José Sócrates estivesse desejoso, ao fim de um silêncio quase total, de finalmente poder dizer umas coisas: as entrevistas feitas a partir de perguntas enviadas para Évora não é a mesma coisa. Tal como também percebo que a TVI (e todos os outros canais de televisão, Correio da Manhã incluído, embora não pudesse…) e comunicação social escrita desejassem “deitar a mão” a uma caixa destas. Não sei porque escolheu José Sócrates a TVI em detrimento da RTP ou da SIC: alguma coisa a TVI lhe deve ter prometido que os outros canais não lhe quiseram prometer – ou não puderam… O que salta à vista, no que toca a essas promessas, é o que o director de informação de Queluz de Baixo lhe deve ter dito qualquer coisa do género: “Vem lá para esta banda, Zé: tens todo o tempo que quiseres.” E talvez até tenha acrescentado: “E se quiseres entrar na Quinta também se pode arranjar.”

Mas também reconheço que, haja o que tenha havido em termos de combinações e acordos, nenhuma das partes teria concordado em fazer uma entrevista de 15 minutos. Só que o resultado foi, de facto, um exagero de tempo, sobretudo por ter ficado prometida a continuação para o dia seguinte, quarta-feira passada. Ora, convenhamos que o “Jornal das 8” não é exactamente o Canal História, para andar a fazer sequelas autobiográficas. Fui só eu ou mais alguém reparou que as perguntas de José Alberto Carvalho eram mais deixas para José Sócrates se poder espraiar à vontade? E se ele espraiou! Na altura em que escrevo estas linhas ainda só vi metade da coisa, digamos que aquilo ainda vai na baixa-mar, imagine-se quando chegar a maré alta! Numa coisa, no entanto, eu dou razão ao José, ao ex-primeiro-ministro, e que não tem a ver com a sua inocência ou a sua culpabilidade: há, antes de tudo o resto, da inocência ou culpa de José Sócrates, uma outra culpa. A de quem conduz a(s) investigação(ões) e que arrasta o processo para lá dos limites do aceitável, para lá dos prazos já reafirmados por tribunais de instâncias superiores. E isso não é aceitável num estado de direito como o nosso se gosta de afirmar.

AINDA HOJE, terça-feira, vi nos jornais que se assinalam os cinco anos do julgamento do processo BPN. E este processo, que parecia ser um daqueles casos em tudo semelhante a outros que ocorrem nos hospitais – de abrir e fechar o doente – arrasta-se, apesar de tudo, desde 2010. Ainda eu era novo, caramba! Como pode então o cidadão José Sócrates insurgir-se contra uma Procuradoria-Geral da República, Tribunais e magistrados do Ministério Público? Ele pode queixar-se de tudo – menos de ignorar como as coisas se passam cá por este cantinho à beira-mar plantado. Por isso, se a bitola for a do caso BPN, o Dr João Araújo, advogado de José Sócrates, pode estar descansado: tem emprego garantido até 2020.

MAS HOUVE um ponto em que me pareceu exagerada a narrativa de José Sócrates: foi quando antigo governante apelidou de “operação de terror” as buscas a familiares e amigos que antecederam a sua detenção, e insistiu que estas tinham como objectivo o de intimidar as pessoas que lhe eram próximas: “Atemorizaram toda a gente na esperança que alguém me incriminasse”, afirmou. “Infelizmente, as pessoas só tinham uma coisa para dizer: a verdade”, acrescentou. Lamento dizê-lo, mas nenhum dos amigos ou familiares que foram mostrados à porta da prisão de Évora, me pareceu aterrorizado. Que tudo aquilo lhes parecia uma injustiça, tudo bem: “operação de terror” cheira demasiado a intervenção de marines contra Bin Laden.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Condoleezza Rice é Secretária de Estado do governo de George W. Bush. E foi nessa função que se viu metida no meio daquela história que parece tirada de um filme de James Bond e que tem a ver com os aviões da CIA que terão feito escala em diversos aeroportos da União Europeia, Portugal incluído, via Lajes, transportando prisioneiros secretos que se dirigiriam depois a prisões estrategicamente colocadas noutros países onde não se aplicam as leis dos Estados Unidos, como é o caso de Guantánamo, situada em território cubano. E apesar dos muitos relatórios, incluindo um de um deputado suíço, a senhora Rice, fazendo jus ao nome, acha que com ela ninguém faz arroz: e em vez de responder se sim ou se não, decidiu que a melhor defesa era o ataque – e achou que encostava a Europa à parede se lhe dissesse que ela se deveria preocupar antes com a luta ao terrorismo – e se deixasse de preciosismos.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4099/4100 de 18 de Dezembro de 2015

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