Descer de qualidade à força toda
Bernardo de Brito e Cunha
Quando, em 2012, se não estou equivocado, a TVI “inventou” a fórmula do programa “A Tua Cara Não Me É Estranha”, a princípio não me apercebi do real interesse daquele que, a princípio, me pareceu simplesmente mais um simples programa de imitações, uma outra versão de mais um “Chuva de Estrelas”. No entanto, uma semana depois as diferenças já tinham vindo à superfície – nomeadamente no que dizia respeito não só ao talento de muitos dos participantes mas, sobretudo, pela desenvoltura e pelo “vestir a pele” que quase todos levavam muito a peito. E só quem viu Mico da Câmara Pereira a imitar Ana Bacalhau, do grupo Deolinda, com “Fon Fon Fon”, pode entender do que estou a falar. E perceber a razão por que, aqui em casa – como certamente em muitas outras espalhadas pelo país –, nos rimos até às lágrimas com o seu desempenho. Tal como nos vieram as lágrimas aos olhos quando vimos Toy vestir a pele de Fafá de Belém. E, além disso, sempre com a grande surpresa de ver semana após semana, como hei-de dizer?, “aquele tosco de Curral de Moinas” que afinal se chama João Paulo Rodrigues a fazer brilharete após brilharete. Porque quem nos havia de convencer que aquele homem, que sempre nos passou uma imagem de matarruano era, afinal, um artista de mão cheia e uma grande voz?
A dada altura, julgo ter escrito que não percebia bem qual a intenção do programa “A Tua Cara Não Me É Estranha”, que a TVI transmitiu aos domingos. Acontece que, muito por culpa de João Paulo Rodrigues, que conhecemos também como Quim Roscas, o programa se me revelou interessante. Eram oito personalidades conhecidas que todas as semanas vestiram a pele de um cantor. E excluindo o prémio que cada vencedor semanal atribui a uma instituição à sua escolha, a intenção do programa (como lhe chamo acima) é o puro entretenimento. E a verdade é que tive algumas surpresas (positivas) com muitos dos intervenientes. Foi o caso, quase constante, de João Paulo Rodrigues, de Romana, de FF, de Luciana Abreu e até mesmo de Toy. É verdade que eles não cantam as suas coisas: e muitos, por obra da caracterização, foram verdadeiras revelações. Fiquei cliente até ao fim.
Vou repetir-me: mas seria uma falta demasiado grande não referir, mais uma vez, o trabalho que o cantor FF fez na segunda edição do programa da TVI “A Tua Cara Não me É Estranha”. Convém penitenciar-me e dizer que metia FF num grupo de cantores que não tinha em grande conta. Mas ao ver o que ele fez todos os domingos à noite tive de mudar de opinião. Especialmente naquele domingo, em que imitou a cantora Kate Bush de forma soberba. E imitar os agudos (agudos? Agudíssimos!) de Kate não é coisa fácil.
Tudo isto para chegar à edição deste ano e de não ver ali nem quem saiba cantar nem quem mostre capacidades por aí além de imitação. No primeiro programa, Melânia Gomes ainda fez uma interessante Carmem Miranda e, para mim, Jorge Mourato foi o melhor dos bonecos: se isto não diz tudo, mas tudo mesmo, sobre esta série do programa, então não sei que mais hei-de acrescentar. Não entendo o porquê deste baixar de potencial dos artistas residentes, sabendo que isso resulta naturalmente numa diminuição do produto final. Percebo que João Paulo Rodrigues não possa voltar, uma vez que foi contratado para fazer dupla com Júlia Pinheiro nas manhãs da SIC: mas ainda sobram exemplos… e possíveis candidatos.
E chegou a notícia de que, em 2015, Portugal registou menos emigrantes e mais imigrantes, o que é positivo para a evolução da população portuguesa. Trinta mil pessoas quiseram vir morar para Portugal no ano passado e 15 mil são portugueses que regressaram – alguns daqueles que foram “convidados” a sair na última legislatura. Ao mesmo tempo, há menos habitantes a deixar o país, dizem os dados demográficos do Instituto Nacional de Estatística (INE), esta semana divulgados. O que demonstra, segundo os demógrafos, que há uma nova esperança relativamente à situação económica.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Aconteceu na segunda-feira, mas parece-me que a RTP anda com as voltas trocadas. Isto é: julgo que teria sido mais útil para os espectadores se tivessem passado, em primeiro lugar, a rubrica “Em Reportagem”, da autoria da jornalista Rosa Veloso com o título de “No Reino do Aborto” (que só passaria na quarta-feira à noite), e depois ter lançado aquele debate mais ou menos público e mais ou menos alargado. A reportagem de Rosa Veloso debruçava-se sobre as dezenas de mulheres portuguesas que vão todos os dias a Espanha, abortar no país vizinho, porque é fácil, muito mais barato e também sem riscos. Esse número de mulheres que vão abortar a Espanha tem aumentado todos os anos e vão de todo o Portugal, até da Madeira e dos Açores. O número de mulheres que aborta em Espanha nas três clínicas visitadas por Rosa (duas em Madrid e uma em Badajoz) ascende a dez mil e são de todas as classes sociais e de todas as idades. As de classe mais humilde e com pouco poder de compra chegam mesmo a pagar o aborto a prestações.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 4 de Novembro de 2016

