Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Dezembro 11th 2017

“BBC – As Crónicas de TV”

Quatro títulos, dois santos e uma surpresa

Bernardo de Brito e Cunha

A RTP liderou as audiências no dia em que Salvador Sobral ganhou a Eurovisão e o Papa Francisco canonizou dois pastorinhos de Fátima e, portanto, nós e mundo ganhámos dois novos santos. Admira-me apenas que nenhuma edilidade por esse país fora se tenha adiantado às restantes e dado os seus nomes a, pelo menos, uma rua, uma rotunda ou, quem sabe, até a um aeroporto. A RTP1 ficou com um share de 23 por cento, enquanto a TVI e a SIC obtiveram, respectivamente, uma quota de 16,9 e de 13,8 por cento. Ao todo foram 5,4 milhões de portugueses que contactaram com o canal público ao longo do dia de sábado.
As transmissões de Fátima também colocaram a estação pública em destaque face à concorrência. O especial “Francisco em Fátima” que arrancou às 13h45 obteve 7,3 por cento de audiência, enquanto a missa do “Centenário das Aparições”, transmitida pela RTP conseguiu uma ínfima vantagem sobre a TVI – mesmo depois de a realização da estação de Queluz ter feito uma entremeada, se me é permitida a expressão, entre as imagens do Papa e a emoção de Fátima Lopes, a apresentadora do canal… Apesar de ambas terem tido uma audiência de 6,8 por cento, a RTP obteve um share de 24 pontos, enquanto a estação de Queluz ficou duas décimas abaixo desse valor. O espaço informativo mais visto do dia também foi o da estação pública (“Jornal da Tarde” com 7,8 por cento de audiência).

A final da Eurovisão foi o programa mais visto com uma audiência de 14,5 por cento e um share de 31,5 por cento. O segundo programa mais visto foi a entrevista com o cantor Salvador Sobral, após a vitória no festival, que registou uma audiência de 12 por cento. Destaque ainda para a edição especial de análise à Eurovisão que começou às 23h55, que se prolongou por uma hora e que chegou à quinta posição do ranking dos programas mais vistos (9,2 por cento de audiência). Tudo isto é lindo, até porque completamente inesperado, mas a verdade é que há aqui algumas coisas a realçar. Para começar parece-me incrível que Salvador se tenha atrevido a cantar em português: justificou isso por diversas vezes, dizendo que a nossa língua é belíssima, portanto não se justificava cantar numa outra língua qualquer. Vimos isso, de resto, logo na primeira eliminatória: eram 17 países a cantar em inglês e Salvador, sozinho, a cantar em português… Luísa Sobral, irmã e compositora da canção, deitou ainda mais achas para a fogueira dizendo, já em Lisboa, que muitos intérpretes cantaram em inglês – sem saberem falar essa língua! Isto é, o crime de se vender a uma língua que não é a sua, não compensa.

Mas também endereço daqui uma pergunta a Salvador: ele, que se mostrou tão profissional, tão amante da música e dos seus intervenientes pactuou com o playback ou fui só eu que não deu por orquestra nenhuma? Esta e uma outra, que Salvador colocou na conferência de imprensa no aeroporto Humberto Delgado: “Sei que isto vai custar muito dinheiro, tenho de pedir desculpa à RTP.” De facto, a coisa não vai sair barata e é bom que a RTP comece a planear as coisas, para não fazer má figura para o ano.

Num dia marcado ainda pela conquista do tetracampeonato pelo Benfica, nos canais informativos, o primeiro posto ficou com a CMTV (3,1 por cento), seguida pela TVI24 (2,7 por cento) e pela SIC Notícias (1,8 por cento). A BTV1 chegou à sétima posição do ranking dos canais mais vistos do dia (1,8 por cento de audiência) o que se explica pelo facto de o canal do Benfica se ter limitado a transmitir o jogo com o Vitória, de Guimarães.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Quem viu o “Prós e Contras” da última segunda-feira, dedicado como seria de esperar ao desaparecimento da pequena Madeleine (e, de caminho, também dedicado às oito crianças portuguesas que continuam desaparecidas), terá percebido porque gosto da jornalista da RTP Sandra Felgueiras. Apesar de estar no Algarve há 11 dias, com constantes intervenções diárias, fez para o “Prós” um relato em directo de enorme qualidade, relacionada com a detenção do arguido Robert Murat. Ao fim de 11 dias – e vemos isso nos directos das outras estações, em que se baralha e torna a dar a mesmíssima informação que, as mais das vezes, não é nenhuma – Sandra Felgueiras fez um relato longo, detalhado, sem gaguez nem repetições, no passeio oposto à Polícia Judiciária de Portimão. Foi um trabalho de enormíssima qualidade, sobretudo se atendermos ao facto de ter na mão esquerda um caderno de apontamentos – e de nem uma vez ter olhado para ele…»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 19 de maio de 2017

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.