Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Novembro 24th 2017

BBC – As Crónicas de TV”


Uma pequena questão de critério


Bernardo de Brito e Cunha

Já não é a primeira vez que vejo umas reportagens feitas por Ribeiro Cristóvão na SIC, com o título genérico de “Vidas Suspensas”. De cada vez que o vejo, lamento sempre que ele não tenha ficado como repórter na Assembleia da República ou continuado a comentar os jogos de futebol, coisa que ele fazia de forma bem peculiar. Nem sempre correcta – julgo que o clubismo se impunha sempre – mas o peculiar era, de facto (e como eu costumo dizer) um factor preponderante da sua impressionante personalidade.

Desta vez tivemos o caso de uma mulher americana de ascendência russa, de seu nome Tamilla. Conheceu um jovem português na faculdade, achou que era o amor da sua vida e, claro está, pronto, casaram. Bem sei que parece uma história de Hollywood mas não, a coisa passava-se em Nova Iorque. Com essa história de amor veio um filho e, pouco tempo depois, oops! o divórcio. Fica-se com a ideia de que o português, marido, levou a coisa a mal e começou a fazer-lhe a vida negra: vens para Portugal mas não trabalhas (ela era técnica dentista), agora vais viver para casa dos meus pais, deposito-te 100 euros por mês na tua conta, etc, etc. Claro que o caso do divórcio acabou por ir a tribunal, bem como, consequentemente, a questão do filho. Surpreendentemente, o tribunal português atribuiu o poder parental ao pai, que pode ou não proibir as visitas da mãe. E Tamilla, que não teve outro remédio se não voltar para os Estados Unidos para trabalhar em part-time para poder pagar as dívidas contraídas e relacionadas com o curso que tirou, vem de três em três semanas a Portugal para ver o filho.

O que tivemos nesta reportagem? Ribeiro Cristóvão a fazer a ligação dos factos, Tamilla a contar a sua parte, a jornalista Sofia Pinto Coelho a entrevistá-la e algumas declarações da advogada de Tamilla. Contraditório nem vê-lo, do pai não se conhece sequer a cara. Então, Cristóvão? Ele que disse, na apresentação do programa que, através dele, cujo primeiro episódio arrancou com a história de Delfim, o recluso mais antigo de Portugal, o próprio Ribeiro Cristóvão esperava dar mais visibilidade a estes casos com vista à sua resolução. Ainda assim, o jornalista não considerou que o formato seja o espelho de uma justiça pouco eficaz, afirmando: “Tendo embora algumas razões para nos queixarmos da nossa justiça, sobretudo no que tem a ver com a morosidade dos seus processos e que às vezes dão azo a situações perfeitamente inaceitáveis, creio que não temos razões para nos queixarmos totalmente da justiça em Portugal.” Ora isto de se fazer um programa que se quer debruçar sobre casos de injustiça e vir dizer que, ah vamos lá a ver, se calhar a coisa não é tão má como para aí se vai pintando, tem que se lhe diga: veja-se o caso do banqueiro do BPN que foi finalmente condenado, ao fim de um ror de anos, e que agora vai prolongar esse impasse e continuar em sua casinha recorrendo, recorrendo, recorrendo… E se mesmo assim tiveres dúvidas vai lá perguntar a Tamilla qual a sua opinião a este respeito. Pergunta, Ribeiro – muito embora ela tenha deixado a sua opinião muito bem expressa no programa. Ou será que perdeste este episódio, Ribeiro Cristóvão?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Ora, a verdade é que no seu último programa, o senhor foi buscar dois exemplos – e, a terminar, ainda lhes acrescentou mais uma dezena, para que ficasse um ramalhete de uma dúzia, redondinha – em relação aos quais ninguém pode ter razão de queixa. Esses programas foram “Portugal – Um Retrato Social” e a série “Conta-me como Foi”. Falou bem deles, o que só lhe fica bem e prova que, pelo menos, não tem o gosto estragado. Mas fez mais: foi buscar o autor do primeiro programa que refiro, António Barreto, e a realizadora do mesmo, Joana Pontes, que, naturalmente, vieram corroborar a sua opinião. Mas fez mais ainda: foi para a rua (salvo seja: mandou uma equipa) inquirir junto de cidadãos quais eram as suas opiniões. Eram boas, claro. Mas, uff!, ainda não chegava: e foi buscar uma socióloga que explicou direitinho o que aquele programa significava. Como se isso fosse necessário, caramba!»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 2 de Junho de 2017.

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