Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Julho 20th 2017

“BBC – As Crónicas de TV”

Um chef, um jogo e duas crianças

Bernardo de Brito e Cunha

Apesar de não ter visto em directo fui “voltar atrás”, num desses meios que hoje estão disponíveis, seja no computador ou na televisão, o último episódio do programa de Ljubomir Stanisic “Pesadelo na Cozinha”, não só por ser o último mas também porque se estabeleceram algumas comparações (bem sei que apenas em termos de audiências) entre ele e, de certa maneira, Cristiano Ronaldo. Sim, porque quando joga o Real Madrid, para este lado de cá da Península Ibérica é como se jogasse apenas Cristiano Ronaldo, contra os 11 do outro lado. Mas a essa parte já iremos.

A primeira coisa que achei estranha neste episódio de “Pesadelo” foi o tempo de entrada de Ljubomir em cena: já tinham passado 13 minutos de programa quando ele, finalmente, franqueou as portas do restaurante Carolina do Aires, na Costa de Caparica, pela primeira vez. Seria curioso ir ver os 12 programas anteriores e ver quais foram esses tempos de entrada: julgo que terão sido bem menores, mas isso só atesta os bons resultados e a cavalgada do chef sérvio nas audiências da TVI – o que, ao que consta nos mentideiros, terá feito com que algumas vedetas do canal não o tenham querido como concorrente… O programa não foi, excluindo esse pormenor, muito diferente dos anteriores excluindo o facto de aquele me ser, ao contrário dos 12 locais anteriores, bastante familiar e que frequentei tantas e tantas vezes. É certo que o seu aspecto arquitectónico está bastante diferente (e até num local um pouco deslocado do original), mas aquilo faz parte de uma época da minha vida, mais musical do que de crónicas televisivas.

Quanto ao resto, a coisa foi muito semelhante aos programas anteriores que vi – e que, por sua vez, eram rigorosamente iguais ao estilo do programa de Gordon Ramsay. Aqui, entendo o sucesso de Stanisic, apesar dessas semelhanças: Gordon dizia a mesma espécie de coisas, mas legendadas (o que sempre vai permitindo um disfarce) e Ljubomir fala perfeitamente português e não faz poupanças em termos de vernáculo. O que, por não aparecer frequentemente na televisão, é mais um motivo de interesse pelo programa. E também porque Ljubomir, quando entra pela primeira numa cozinha de um daqueles restaurantes, assume de certa maneira o papel de uma ASAE que todos gostaríamos que, de vez em quando, aparecesse no restaurante que frequentamos e pusesse termo a uma série de coisas que por lá vamos vendo.

A comparação de que falo no primeiro parágrafo tem a ver com o facto de o programa de Ljubomir ter batido, em termos de audiências, já o disse, a final da Liga dos Campeões, entre o Real Madrid e a Juventus. E é ou não estranho que um jogo de uma equipa “portuguesa” (porque lá estava Cristiano, claro) tenha sido batido por um programa sobre o estado deplorável da carta, da cozinha, e das chefias de um restaurante da Costa de Caparica? Obviamente que sim: porque vem provar que o velho dogma de que um jogo de futebol bate tudo em termos de televisão, se calhar está ultrapassado.

Poucos dias depois deste acontecimento, chega a notícia (?) largamente difundida pelas televisões, de que Cristiano Ronaldo já é pai de gémeos. O facto de a respectiva concepção ter custado uns milhões de dólares não é surpresa: uma barriga de aluguer não sai de graça mas, por outro lado, o clã Aveiro tem mais dois herdeiros. A circunstância de CR ter muito dinheiro não deve chegar a fazer mossa na divisão de bens, nem sequer poder a vir causar rixas familiares. O que me causa algum incómodo é que os três descendentes (até agora…), apesar de todo o dinheiro, já tenham nascido com uma outra espécie de pobreza: o de terem nascido, todos eles, órfãos de mãe. O que é estranho.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Esse psicólogo, que comenta as respostas e reacções das crianças, é Eduardo Sá, que tem algumas características interessantes. A começar pela voz, quase sussurrada, com que dá respostas e faz comentários, o que confere uma grande tranquilidade ao diálogo. É um psicólogo que, por isso, ou através disso, estabelece uma facilidade de comunicação muito grande, sem sustos nem medos. E que nesta última “página” deste livro, acabou, talvez sem se dar muito por isso, com um outro mito: o de que a mãe amamentar o filho é bom. Claro que é bom, esclareceu ele, mas principalmente por outros motivos: “pelo contacto olhos nos olhos, corpo junto ao corpo” entre a mãe e a criança. E o mesmo se aplicava aos peluches: a sua macieza, o seu calor, são passos intermédios para que as crianças vão dando os passos naturais para “cortarem este cordão umbilical” e se separarem, gradualmente, da mãe.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 16 de Junho de 2017

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