Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Julho 21st 2017

“BBC – As Crónicas de TV”


Os militares do 28 de Junho

Bernardo de Brito e Cunha

Eu não entendo muito dessas coisas, mas parece-me que as pessoas em geral têm, das Forças Armadas, uma ideia de movimento quase sincronizado (em frente, marche!), uma noção de conjunto (esquerda, volver!) quase inquestionável: os últimos dias – vá, a última semana e meia – vieram deitar por terra essa noção. A culpa disso foi o roubo ao paiol de Tancos, na sequência do qual se vieram a saber algumas coisas que nos deixam, como soe dizer-se, de pé atrás com as FA, o que é estranho, visto que o pé atrás, nas Forças Armadas, pensava eu, era uma ordem (intermédia) que não existia e só atingia o seu ponto alto com a ordem de “retirar”. Afinal, a ténue vigilância aos paióis era ainda agravada pela circunstância de os guardas não irem equipados com balas a sério, segundo se disse, para não se atingirem uns aos outros: a vigilância, então, não passava de um plano de um filme de cowboys, em que os corpos estendidos depois de um duelo ao meio-dia na rua principal acabam por se levantar todos, que as balas são sempre de brincar.

Foi um escândalo para muita gente, entre a qual se contavam os oficiais superiores que, nas palavras de um deles, “se sentiram humilhados”. E parece-me que teriam razão: se estivesse na pele deles, sentir-me-ia ligeiramente muitíssimo amachucado. E num rasgo de hombridade com um cheirinho a Idade Média (o que não admira, que as FA são uma instituição antiga) os oficiais superiores decidem convocar uma manifestação frente ao Palácio de Belém, a que se seguiria a deposição das respectivas espadas, símbolos do seu comando, julgo que aos pés do Presidente da República, que é por inerência Comandante Supremo das Forças Armadas. Gesto bonito, embora um pouco século XVI. Mas pronto. O pior foi a manifestação e concomitante deposição de espadas ter sido desconvocada, uns dias depois. Mas mais pior (isto não existe, pois não?) foi o ter-se vindo a saber que só três oficiais superiores é que iam aparecer: lá se foi a ideia de conjunto cerrado e da sincronização. E só agora é que se me fez luz: foi por coisas como estas que o 25 de Abril foi feito por majores e tenentes e capitães, nada acima disso – só mais tarde apareceram os generais…

O facto de António Costa, regressado de férias, ter reiterado a sua confiança no Ministro da Defesa, não me deixou surpreendido. O que me deixou siderado foi o facto de Artur Pina Monteiro (até lhe fixei o nome, vejam bem!), chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, ter revelado que o material roubado estava avaliado em 34 mil euros e que os lança-granadas iam ser abatidos e não podem ser utilizados… Ou, na melhor das possibilidades, não funcionariam bem. Receio que, depois desta informação preciosa, os autores do furto, sejam eles mercenários portugueses, grupos separatistas africanos ou mesmo a rapaziada de potenciais atentados bombistas vá pensar duas vezes, antes que a coisa lhe rebente nas mãos…

Custa-me escrever isto mais uma vez, mas acho um exagero o que Cristina Ferreira faz aos seus produtos no canal em que trabalha, a TVI. Não há perfume, blogue ou colecção de sapatos que Cristina lance que a Ferreira que há em si não venha para a antena do canal que lhe paga (e bem) publicitar esses mesmos artigos. Desta vez o tema teve a ver com a última edição da sua revista, que ostenta na capa (que por acaso são duas) casais homossexuais a beijarem-se. Como de costume, a coisa foi profusamente divulgada no “Você na TV!” e até notícia no “Jornal das 8” da estação e repetida posteriormente. E o que mais me custa no meio disto tudo, não é que Cristina Ferreira o faça, nem que a mesma Cristina não pague alguma publicidade noutros canais ou jornais, mas sim que Manuel Luís Goucha embarque nisto e faça coro com ela. É que Goucha é um profissional que respeito há muitos anos. Faz toda a diferença.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«As coisas são o que são – ou o que acabam por se revelar. Foi o caso do espectáculo das 7 Novas Maravilhas do mundo, de que se pode dizer que foi a montanha que pariu o rato. A culpa, a bem dizer, foi da própria TVI, que ao longo dos meses nos foi prometendo um espectáculo sem igual e sem precedentes. Ora haja dó. É que nem sei por onde começar a pôr defeito: os que menos têm direito à minha razão de queixa serão os apresentadores, dois actores de Hollywood (Hilary Swank e Ben Kingsley) e ainda uma actriz de Bollywood (não, não é gralha: Bollywood é a Hollywood da Índia e, se calhar, bem mais produtiva e próspera) Bipasha Basu. Esses escaparam, apesar da nítida dificuldade que Ben Kingsley tinha para ler o teleponto: ele deve achar que os óculos o desfeiam, tudo bem, é lá com ele. Apesar disso, e do desconforto óbvio do actor, a piscar os olhos e a desejar que o raio do texto estivesse mais perto, o descalabro não veio daí.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra de 14 de Julho de 2017

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