Semanário Regionalista Independente
Domingo Agosto 20th 2017

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma paranóia e uma série a não perder
Bernardo de Brito e Cunha
Eu ainda não percebi muito bem este “rescaldo”, chamemos-lhe assim, do incêndio de Pedrógão Grande. E quando digo rescaldo quero dizer esta sanha, um pouco mórbida, de haver quem queira que tenha morrido mais gente do que a muita que já morreu. O Expresso, que julgo ter sido o primeiro, noticiava na primeira página que “Lista dos 64 mortos exclui vítimas de Pedrógão” o que constitui, como diria Raul Solnado, uma “malandrice”: olhei aquilo e pensei que além dos 64 mortos, ainda havia a acrescentar o número de vítimas do incêndio. Não era nada disto: esta lista dizia respeito ao número de mortos confirmados pelas autoridades no contexto dos incêndios que deflagraram na zona de Pedrógão Grande, tendo o número 64 sido fixado, salvo erro, em 19 de Junho de 2017, após a descoberta de mais um cadáver – o do bombeiro.

Depois disto, e como habitualmente, as televisões lançaram-se a isto como gato a bofe – para não adiantarem grande coisa, que sair da secretária dá muito trabalho. Numa coisa todos esses meios estão de acordo: que a lista foi criada com base num critério específico, o de que a morte tenha sido causada directamente por queimaduras ou inalação de fumo em consequência do incêndio. Ou seja: quando a morte é causada directamente em consequência do incêndio, as autoridades anunciam que há mais uma morte que é resultado do incêndio. Parece claro. Essa lista foi construída pelo Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses e pela Polícia Judiciária, e consta de um inquérito-crime liderado pelo DIAP de Leiria, e que se encontrava em segredo de justiça. Nesse sentido, e mais uma vez de acordo com informação do Expresso, da lista constam as vítimas de um potencial crime de homicídio, que está a ser investigado. Ponto relevante: os nomes destas 64 vítimas foram divulgados pelas autoridades na última terça-feira – neste caso, pelo Ministério da Justiça – acabando com o argumento de que pertenciam a uma investigação em curso que se encontra sob segredo de justiça.

A este critério fugiu o jornal “i” cuja repórter esteve num dos jornais da TVI, alegadamente possuidora de uma outra lista, construída com base no facto de essa repórter ter “falado com todas as famílias das vítimas”. Esta informação apareceu, de resto, em rodapé – até ao momento em que Cristina Reyna (julgo que era ela) lhe perguntou se tinha falado com todas as famílias e ter recebido um “não”… O rodapé desapareceu imediatamente.

Como se não houvesse já teorias da conspiração em número suficiente, eis que aparece na SIC o inquérito de uma empresária de Lisboa: e aí o alarmista jornalista Bernardo Ferrão avança com a teoria de que “o número de mortos pode ser de 100. Ou 90. Ou 80”. E quais são essas vítimas não incluídas no grupo dos 64? Ora bem: uma senhora que foi atropelada enquanto tentava fugir das chamas, de apelido Costa, e o senhor Tomaz, que faleceu vítima de pneumonia. Não estou sequer a dizer que as vítimas indirectas não são vítimas do incêndio. Estou apenas a dizer que se a notícia do Expresso é “há pessoas que não estão na lista”, então convém perceber se os critérios da lista comportam a inclusão dessas pessoas. Caso contrário, a notícia não é a “não inclusão de pessoas”, mas a bondade ou maldade dos critérios que excluem essas pessoas. Mas nisto de critérios ainda estamos à espera que o Expresso publique (conforme prometeu) a lista de jornalistas avençados do Grupo Espírito Santo…

Ando perdido de amores por “Candice Renoir”. É uma série policial cuja heroína é uma comandante da polícia que recebe a liderança de um grupo de ataque ao crime em Sète após quase dez anos de ausência, durante o qual acompanhou o seu marido no estrangeiro e cuidou da educação dos seus quatro filhos. Esta longa ausência e a conotação de mãe de família numerosa são desvantagens que Candice consegue, de forma brilhante, transformar em vantagens: ela resolve as investigações criminais mais complexas com um bom senso e pragmatismo fora de comum. Sendo mulher, loira e encantadora, Candice é subestimada amiúde pelos seus interlocutores. Mas a nossa heroína sabe aproveitar esta situação para surpreender, desestabilizar e, até, confundir. Uma candura a que nada nem ninguém consegue resistir. Excepto, talvez, os seus filhos… Passa no canal AXN, no cabo, depois de ter passado na RTP há um par de anos – onde poucos deram por ela, a começar por mim.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«O curioso, especialmente para quem o conheça ou já o tenha visto a ser entrevistado, é que Rui Reininho não precisa de perguntas para encher completamente o programa. Porque terá sido, então, que Ana Marques não parava de o interromper, em vez de deixar a história correr – e bem? Só posso atribuir isso à solidão. A minha suposição de que Ana Marques deve dormir no estúdio, é capaz de estar certa: e depois, quando lhe entra alguém pela casa dentro, está tão farta de falar consigo mesma que não resiste a pôr a conversa em dia com quem quer que seja que lhe apareça à frente.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 28 de julho

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