Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Outubro 19th 2017

“BBC – As Crónicas de TV”

Els jorns dels miserables

Bernardo de Brito e Cunha

No Conselho Nacional do PSD do início deste mês, o lábio de Pedro Passos Coelho tremeu-lhe na despedida: não fossem as maldades que nos fez a todos, numa espécie de “orgulhosamente só”, ao longo de muitos anos, e quase daria pena. Há pouco mais de um ano, no Verão de 2016, Passos seria vítima desse isolamento. Sem outra informação senão a que era produzida internamente no PSD, o líder social-democrata viu na ameaça de sanções a Portugal e na negociação da recapitalização da CGD um moinho de vento em forma de diabo. Não falou com Carlos Moedas (de quem se afastou por ver nele uma protecção ao Governo), com o governador do Banco de Portugal ou sequer com Francisco Pinto Balsemão ou Marques Mendes, que tinham ouvido Mario Draghi num Conselho de Estado garantir que estaria ao lado do país na defesa de uma CGD pública. Prevendo uma crise, avisou disso os conselheiros do partido e afastou Assunção Cristas, dizendo-lhe que não a apoiaria na candidatura a Lisboa. Esperou por Pedro Santana Lopes, que o deixou em stand-by e acabou por dizer que não.

Mesmo assim, Passos foi a eleições e ganhou. Contra todas as expectativas. Como foi contra as suas expectativas que não chegou a governar: sem maioria, António Costa recusou o convite para ser vice-PM e montou o que viria a ser considerado uma “geringonça”. E o raio do diabo que não chegou e a Caixa lá acabou por se recapitalizar. As eleições autárquicas chegaram e Passos surpreendeu-se com o resultado, não percebo bem porquê. Demitiu-se na terça-feira. Ou, se preferirmos, emigrou: tal como aconselhou a muitos portugueses. Saiu da sua zona de conforto, foi o que foi.

No Conselho Nacional, lembrando-se talvez do adjectivo “piegas” que lançara sobre tantos e tantos portugueses, o lábio tremeu-lhe na hora da despedida. Prometeu “não andar a rondar” por aí. Mas lembrou o seu projecto, com as mesmas ideias que escreveu no seu livro “Mudar”, de 2010: “Uma sociedade civil autónoma do Estado e dos pequenos e grandes poderes”, “um poder político que saiba separar o interesse público do privado ou particular”, “uma economia competitiva, aberta, autónoma, socialmente responsável”, “uma sociedade com sentido de exigência, e de rigor e disciplina”. O projecto liberal, para Passos, não acabou, interrompeu-se: “Se estas ideias básicas foram as ideias por que lutei muito, não deixarei de lutar por elas. O facto de não me recandidatar, não significa que me vá calar para sempre”. Não sei se foi uma promessa ou uma ameaça.

Confesso que esperava mais do Presidente da Generalitat da Catalunha. Quando Carles Puidgemont convocou um plebiscito que sabia que Madrid não aceitaria (apesar de ter apoio parlamentar na Generalitat), que não veria com bons olhos e ao qual respondeu com uma força excessiva, o que se pode concluir pelas imagens que as televisões mostraram, eu esperava que ele pusesse os olhos em Che Guevara, assassinado há 50 anos, e fosse mais homem. E, afinal, não foi. Depois de tanta coisa, tanto esconde-esconde das caixas de voto, tantas artimanhas para fintar a Guardia Civil enviada por Madrid, tanto encontrão, tanta cabeça partida, tantas centenas de feridos, esperava que fosse em frente – mesmo sabendo que arriscava uma pena de prisão. Mas não: declarou que o resultado do plebiscito impunha que se declarasse a independência da Catalunha mas, logo de seguida, deitou água na fervura e deixou tudo em suspenso, esperando por conversações com Madrid que, muito possivelmente, nunca chegarão. E o que vai acontecer? Muito provavelmente que Rajoy, como bom falangista, esmague a Catalunha e lhe retire os poderes autónomos. Como disse Mario Vargas Llosa, Nobel da Literatura, em directo de Barcelona, “Puigdemont é um golpista”. E é pena, porque a Catalunha não merecia isto. E muito menos este presidente.
E agradeço ao cantor catalão Lluis Llach o facto de me ter dado uma ajuda no título desta crónica n.º 900, que foi, há muitos anos, o título de uma canção sua.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Como alguns eventualmente saberão, Ricardo Araújo Pereira mantém uma crónica semanal numa revista portuguesa. Não posso dizer que fique muito satisfeito ao ver que o talento que ele tem – obviamente – acaba por ser um talento preguiçoso e que, muitas vezes, os temas das crónicas semanais acabam por surgir no programa de televisão, no todo ou em parte. Foi o que aconteceu nesta semana de rentrée, onde as graças relativas aos jogadores de râguebi já tinham surgido na última página da Visão.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 13 de Outubro de 2017

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