Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Novembro 21st 2017

“BBC – As Crónicas de TV”

As minhas revoluções

Bernardo de Brito e Cunha

Nesta terça-feira em que escrevo, 7 de Novembro, comemoram-se os 100 anos da Revolução Russa, também chamada de Revolução de Outubro. Um amigo de há muito tempo costumava brincar com essa diferença de datas e disse-me um dia, em tom de chalaça: “Bem vê, a Rússia dos czares era tão atrasada que quando aconteceu a Revolução de 7 de Novembro de 1917 eles ainda estavam em Outubro!” Não foi por esse atraso – que de facto acontecia, sobretudo ao nível da opressão do povo russo – mas por uma questão de calendários diferentes entre a Rússia e o mundo ocidental. Para todos os efeitos, este foi o meu primeiro centenário histórico – tirando o centenário do Sport Lisboa e Benfica – e isso pesa. Para o de Che Guevara ainda faltam 11 anos e não sei se lá chegarei… Mas esse, sim, esse é que eu gostava de comemorar!

Nasci no pós-guerra, julgo que o primeiro presidente russo de que me lembro terá sido Nikita Krutchov: já lá iam quase 50 anos deste centenário e quem ficou para trás só o descobri mais tarde. Mas a ideologia da revolução que prometia derrubar o poder do capital e as distorções que a acumulação de capital provocava na sociedade atraiu seguidores por todo o mundo, desde Cuba à Coreia. Os seus adeptos convenceram-se de que a construção do comunismo implicava o desenraizamento dos ideais capitalistas e a purga dos que se mantinham fiéis a um pensamento burguês ou contra-revolucionário. Na demanda pela construção de um futuro comunista, milhões de pessoas foram feitas prisioneiras, e milhões mais morreram de fome ou executadas.

Até que tudo começou a desmoronar-se, pela mão do cinismo, da exaustão e das inevitáveis comparações com as prósperas economias de mercado do Ocidente. Recordo que o comunismo à escala mundial foi o inimigo mais temível da América nas décadas centrais do século XX. Mas desde 1989 (uma outra revolução ou queda de um muro já essa transmitida pela televisão) os países, um após o outro, foram ou abandonando inteiramente o comunismo ou empurrando-o discretamente para o lado, em busca dos mercados. Hoje, existe apenas nas suas formas mais ténues. Entre os países comunistas que restam, a Coreia do Norte é o único resistente mais ou menos feroz, mas até mesmo aí os mercados têm, lentamente, vindo a mudar a natureza da economia.

Fica esta recordação, um pouco maltratada pelo apontamento com que o “Jornal das 8” da TVI a assinalou, sempre referindo o comunismo como se fosse uma praga e nunca referindo as tentativas de uma sociedade melhor e mais igualitária. Talvez o autor da peça não soubesse que se tratava do meu primeiro centenário histórico – tirando o centenário do Sport Lisboa e Benfica, que antecede a Revolução Russa em 13 anos…

Não há palavra que descreva o espaço que ocorre na TVI aí a partir da uma da manhã. A coisa chama-se “Super Quiz” e dizem que é uma espécie de concurso. Há umas palavras para descobrir, ou umas diferenças nuns bonecos, etc, etc. E depois, claro, chega o inevitável: é necessário ligar para um daqueles números mágicos, de valor acrescentado. A princípio, as quantias são modestas, 20 ou 30 euros, mas depois sobem para umas centenas e, por vezes, mais de um milhar. O curioso é que, como que por milagre, quando as quantias são de 20 ou 30, os telefonemas sucedem-se – mas quando são de centenas parece que o povo se aborrece com uma tal oferta e deixa de telefonar… Se aquilo não é uma moscambilha olhem bem que tem todo o ar.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«O caso de Madeleine McCann não desaparecerá das nossas cabeças (e das nossas televisões) num período curto de tempo. Por um lado porque Maddie ainda não apareceu e, por outro, porque a polícia portuguesa foi ligeiramente muitíssimo beliscada pelos órgãos de comunicação britânicos. Passaram já seis meses sobre o desaparecimento da loirinha que, ao fim deste período de tempo, também é um pouco nossa. As televisões assinalaram a data de diversas formas – quase todas com a contenção que o caso sempre requereu e continua a pedir. A RTP, no entanto, fez ligeiramente mais, como lhe competia: fez um programa de uma hora em que mostrou o “filme” dos acontecimentos que tiveram lugar ao longo destes seis meses, mas em que só eram mostrados os factos que estão confirmados para lá de qualquer dúvida. Nada de mexericos nem de diz que disse. Perfeito.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 10 de Novembro de 2017

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