Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Dezembro 11th 2018

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma coisa muito pequena para Biggs

Bernardo de Brito e Cunha

Parece que no final de 2016, o canal Panda Biggs (que não é daqueles que eu sigo) censurou uma série de animação japonesa chamada “Sailor Moon Crystal 3”, cortando um beijo entre duas raparigas, mais umas cenas onde se falava de identidade de género. O corte deu origem a quatro queixas junto da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), com o argumento de que se tratou de “um acto discriminatório com base na orientação sexual”. A ERC não deu razão às queixas, dois anos depois, que estas coisas levam tempo, ilibando o canal Panda Biggs.

A posição daqueles que se têm distinguido “pela defesa ardente da liberdade de expressão” merece ser devidamente sustentada e esclarecida. Uma nota para a questão estritamente legal, que para o caso é a menos interessante: a ERC argumentou que a Lei da Televisão diz apenas que “os serviços de programas televisivos não podem incitar ao ódio racial, religioso, político ou gerado pela cor, origem étnica ou nacional, pelo sexo, pela orientação sexual ou pela deficiência”.

Sendo difícil advogar que a censura de cenas é um incitamento ao ódio ou um apelo directo à discriminação, é possível que do ponto de vista jurídico o Panda Biggs se safe dessa forma. Mas naquilo que é a questão de fundo, tal gesto não me merece quaisquer dúvidas: é obviamente inadmissível, vergonhoso e discriminatório um canal de televisão censurar uma série de desenhos animados para pré-adolescentes (é por isso que o canal se chama Biggs) só porque em dado momento aparecem duas raparigas a beijarem-se na boca. O que é pena é que certas passagens da deliberação da ERC têm um cheiro insuportável a naftalina. A dada altura desculpa-se o “silenciamento das temáticas homossexuais e transgénero de um programa infantil por alegadamente terem sido consideradas desadequadas ao público jovem”, com o argumento de que “tal preocupação até é legítima, dado que se está perante um assunto fracturante na sociedade portuguesa”.

Mas vejamos: o aborto é um assunto fracturante. A eutanásia é um assunto fracturante. Posso até admitir que a adopção por casais homossexuais seja um assunto fracturante. Mas a homossexualidade? Cara ERC: a homossexualidade tem sido um assunto cada vez menos fracturante desde há pelo menos 20 anos, graças a Deus e a diversos activistas. Alguém achar que a homossexualidade ainda é fracturante em 2018 é puro preconceito, sem nenhum argumento lógico atendível (até a Igreja já tem vergonha de defender a tese contra-natura em voz alta), e graças a uma falta de visibilidade que o Panda Biggs apenas reforçou com a sua opção. Portanto, não se percebe qual seja a dúvida nesta matéria: como o próprio nome indica, os defensores ardentes da liberdade de expressão não gostam que censurem coisas. Não gostam que censurem desenhos animados. Não gostam que censurem cadernos cor-de-rosa e azuis. E não gostam que censurem o uso da palavra “princesa” surgida num anúncio televisivo recente. Mais simples do que isto não há.

Mário Machado escreveu na última terça-feira na sua página de Facebook, de que as TVs fizeram eco, os motivos que o levam a apresentar a sua candidatura à liderança da claque Juventude Leonina, de que falei nesta coluna há duas semanas, acusando o grupo organizado de ter engendrado “o ataque a Rui Patrício com as ‘tochas’, e o ‘ataque em Alcochete’, que veio criar uma instabilidade brutal no clube com o culminar da saída de valiosos activos, com a ‘justa causa’ a referir sempre esse acto de violência”. O antigo líder da Frente Nacional sublinhou ainda que a “claque está sequestrada por gangues de marginais liderada pelo actual presidente”, acusando os seus elementos de usar a Juve Leo “como plataforma para o narcotráfico com o aval das autoridades policiais, nomeadamente o departamento de informações da PSP em Alcântara”. Portanto: é o ex-líder da Frente Nacional de extrema-direita que quer pôr aquilo tudo a andar sobre rodas? A sério? Mas mesmo?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Artur Albarran está de regresso à televisão portuguesa, para apresentar “O Mundo é Pequeno”, um novo formato para as noites de sábado. Os conteúdos deste programa incluem vários clips de insólitos e histórias “limite”: desde narrativas e conflitos sociais, a desastres naturais, perseguições policiais, câmaras de vigilância, casos de saúde, bloopers, acidentes desportivos, tragédias aéreas, etc. Mas o programa tem um probleminha: deita mão a diversos clips daqueles que nos mandam pela internet, do YouTube ou congénere, e faz disso (e com isso) um programa. O próprio Albarran já fez, em tempos, um programa semelhante, quando a Internet ainda mal existia, no qual criou a célebre frase “o drama, a tragédia, o horror” e que tinha a mesma linha editorial de “O Jornal do Incrível”.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4216 de 15 de Junho de 2018

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