Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Agosto 14th 2018

“BBC – As Crónicas de TV”

Séries: uma questão de línguas

Bernardo de Brito e Cunha

Tudo começou com a série Candice Renoir, de que já aqui falei algumas vezes. Para além da graça que a série policial tem (porque continua), e já aqui o escrevi, aqueles episódios tinham uma outra coisa: é falada em francês num mar de séries e canais falados em inglês. Quando vi que a RTP2 ia passar um thriller político e policial belga, pensei para comigo “Aqui está outra a ver!” Estava enganado e de duas maneiras – mas só o viria a descobrir depois. Esta série, cuja primeira temporada já terminou (a segunda começou na última segunda-feira), começa com um assalto a um banco privado de Bruxelas, o Jonkhere Bank. A princípio parece ter sido um assalto normal, mas depois surgem dois factos importantes. Para começar, o roubo não é participado à polícia; depois, quando apesar dos esforços do dono do banco para ocultar o sucedido, um polícia descobre que o assalto aconteceu: mas dá de caras com um facto estranho, o de que apenas foram abertos e levados os conteúdos de 66 cofres.

Intrigado com essa especificidade lança-se numa investigação, apesar de o seu chefe o ter afastado do caso. Paul acaba por descobrir que as 66 vítimas são membros de uma sociedade secreta chamada Salamander (é esse o nome da série), cujos membros compõem a elite industrial, financeira, judicial e política do país e os cofres assaltados continham os seus segredos mais íntimos – que remontam à segunda guerra mundial e que podem fazer cair o país. Cópias desses segredos começam a ser enviados às figuras gradas do Estado e muitas optam pelo suicídio.

Os locais das filmagens fazem lembrar um filme turístico feito durante umas férias em Bruxelas: mostram o Parque de Bruxelas, o Parque Egmont, o exterior do Parlamento Federal Belga, o Parc du Cinquantenaire, o Supremo Tribunal, a estação de caminho de ferro de Bruxelas-Sul e o famoso Hotel Metropole. Mas isto, como soe dizer-se, é paisagem: o mais importante é a língua, ou melhor: as línguas. É significativo, num contexto belga, que é apenas na reunião do “conselho de administração” do grupo Salamander que vemos alguém falar Francês, enquanto Paul e todos os “bons” falam em bom e corriqueiro Flamengo. Na vida real, as pessoas colocadas em postos de relevo na administração belga – e nem todos serão corruptos, certamente… — também falam em Francês. E vemos isso com muita clareza numa cena: a única vez em que o chefe supremo da Salamander fala flamengo é para interrogar o seu peão político Noël, que estão a treinar para ocupar o cargo de secretário de estado marioneta, que ficará encarregado da polícia, do sistema jurídico e da segurança nacional. E esta curta cena traz uma implicação muito clara: o francês é a linguagem dos governantes, e o flamengo a dos governados, falada apenas para dar instruções aos servos…
A série, como escrevi acima, vai na sua segunda temporada e passa na RTP2 todos os dias, um pouco depois das 22 horas. É bom ouvir duas sonoridades que não é comum ouvir na nossa televisão. E do flamengo, então, o melhor é nem falar: deve ser uma oportunidade num milhão…

Um breve apontamento para uma outra série, desta vez só para quem tem televisão por cabo: Alice Nevers (que, no original, tem o subtítulo A Juíza É Uma Mulher) e que passa diariamente no AXN, por volta das 21h25. São episódios independentes, ao contrário de Salamander, e que são crimes que a juíza de instrução e o comandante Marquand têm de resolver semanalmente. Muito semelhante na estrutura a Candice Renoir, com os casos pessoais a intrometerem-se nos assuntos policiais, Candice bate Alice aos pontos no humor e até nas próprias situações pessoais. E em temporadas que são paralelas no tempo, tanto Candice como Alice têm tido os seus sonhos eróticos com os seus subordinados… Mais uma oportunidade para ouvir falar francês. Não nos sonhos, claro: na série. E para a próxima edição fica prometida uma outra série da RTP2, semanal e… falada em inglês!

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Porque a verdade é essa: todos os dias, durante o Verão, a RTP vai ter com as pessoas, com as diferentes localidades do país, com as realidades de cada região. Todos os dias a RTP nos entra em casa trazendo-nos uma amostra da História do local, dos costumes, dos hábitos, dos sabores e dos saberes de cada sítio. Claro: a gastronomia também, a agricultura, os monumentos, eu sei lá! Ao menos uma vez a televisão vai ter com as gentes de um ponto do país e nos mostra como somos, mais a norte, mais a sul, em todo o lado.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4222 de 27 de Julho de 2018

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