Semanário Regionalista Independente
Domingo Outubro 21st 2018

“BBC – As Crónicas de TV”

Que bom se Portugal fosse um sítio asseado…

Bernardo de Brito e Cunha

Os ingleses têm uma expressão que usam quando um jornal dá uma notícia, ou quando um segredo grave se torna público: “The shit hit the fan”. Não a traduzo literalmente, mas digamos que sempre que Ana Leal, jornalista da TVI, se mete numa investigação, “muita porcaria acerta na ventoinha”. “O Compadrio” era o nome da reportagem que procurou demonstrar, através de testemunhos inéditos, na primeira pessoa, que muitas pessoas tiveram indicações para adulterar os processos de candidatura, forjando moradas de residência e alterações de moradas fiscais, com a conivência dos poderes públicos locais. O presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, e o então vereador do Urbanismo Bruno Gomes saberiam, desde o ano passado, da existência de irregularidades no processo de atribuição de donativos para a recuperação das casas de primeira habitação que arderam no trágico incêndio, em Junho do ano passado.

O objectivo da alegada tramóia era assegurar que segundas habitações (e até mesmo terceiras habitações, caramba!) passassem a figurar como primeiras habitações, de forma a terem acesso aos subsídios que garantissem a recuperação das respectivas casas. O Governo já enviou para o Ministério Público as denúncias de irregularidades reveladas na reportagem da TVI. Os partidos com assento parlamentar exigem o apuramento total das responsabilidades – o clássico. Só que os visados se sentiram ofendidos – veremos se têm razão para isso – e o presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, decidiu pedir também a intervenção do Ministério Público para serem averiguadas as denúncias divulgadas naquele programa televisivo sobre a reconstrução de casas afectadas pelo incêndio de 2017.

No comunicado do presidente da câmara pode ler-se que “face à gravidade das denúncias veiculadas na reportagem transmitida pela estação de televisão TVI em 22 de Agosto, denominada ‘Repórter TVI — Compadrio’” e às “imputações graves e difamatórias” ao presidente e vice-presidente da câmara e a funcionários camarários, Valdemar Alves pretende “submeter à apreciação do Ministério Público todas as denúncias que foram ali tratadas”. O objectivo do autarca é, referiu nesse comunicado, que seja “averiguada a existência ou não de ilícitos criminais”. De acordo com o comunicado, Valdemar Alves decidiu também “participar criminalmente contra a jornalista [Ana Leal] e todos os responsáveis editoriais daquela estação televisiva, designadamente pelas imputações difamatórias que são feitas a título peremptório e parcial, e sem respeito pela presunção de inocência”.

Admira-me isto? Nada. Nadinha, nem um pouco: há muitos anos que me apercebi de que vivia em Portugal e que a aldrabice e a falta de asseio imperam. Em tudo: numas casas que arderam mas que afinal não arderam e só estavam ao abandono e em ruínas; num caso de suborno referente a submarinos que levantou celeuma ao nível do governo e que ficou em águas de bacalhau, ao passo que os subornadores alemães bateram com os costados na prisão; até ao mais miserável jogo de futebol onde o árbitro não vê o que se mete pelos olhos dentro ou, se vê, arrisca-se a ter uma espera cá fora. Isto já não me surpreende, pronto: estou conformado, digamos assim. E não devia estar. Recuso-me a estar conformado com esta treta. E o que também já não percebo é a atitude do Presidente da República perante o caso que refiro acima: espero que isto esteja deslindado até ao Natal, disse (por outras palavras) Marcelo Rebelo de Sousa. Até ao Natal? Mas o Natal este ano é mais cedo, não é em finais de Dezembro, como de costume? É que haja dó: qualquer computador das finanças faz uma listagem dos moradores que moram/passaram a morar em Pedrógão no último ano, comparar com as casas reconstruídas até agora, e tudo isso em menos de um fósforo. Não há é vontade de fazer isso em menos de um fósforo, não é? Deve ser com medo do risco de incêndio, claro está.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«É certo que Pequim 2008 – ou os Jogos Olímpicos do Beijinho, como lhe chamam alguns dos meus vizinhos – não foi exactamente aquilo de que se estava à espera, do ponto de vista de competição dos nossos atletas e houve mesmo alguns, de entre eles, que tivessem anunciado que competir, nunca mais. Não fosse o fabuloso salto de Nelson Évora e a luta de prata de Vanessa Fernandes (principalmente) contra si mesma e estaríamos agora um pouco mais insatisfeitos. Nós e Laurentino Dias, secretário de estado do desporto, que assentou arraiais em Pequim como se todas as medalhas a conquistar fossem para ele – e por um pouco não conseguia ver nenhuma.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4223 de 31 de Agosto de 2018

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