Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Novembro 16th 2018

“BBC – As Crónicas de TV”

Corrupção, corrupção, corrupção…

Bernardo de Brito e Cunha

A vida (e a televisão) estão cheias de polícias. Bons, maus, assim-assim, é um fartote. As séries também: há aquelas em que podemos contar com polícias bons, maus e até assim-assim – que, se formos a ver, serão talvez os que menos interessam, pois não são carne nem peixe. A série que prometi – antes das férias, imagine-se! – de que vos falaria, “Lei e Corrupção” (passa na RTP2 aos domingos à noite), tem um pouco disto tudo mas tem bastante mais: ao passo que numa série policial clássica os polícias andam atrás de ladrões ou correm atrás de assassinos, aqui a coisa passa-se de maneira ligeiramente diferente, uma vez que em “Lei e Corrupção” os polícias andam atrás de… outros polícias.

Quando a primeira série (cá vamos agora na terceira) estreou na BBC2, em 2012, o seu autor, Jed Mercurio escreveu um artigo para o Guardian onde explicava diversas coisas (leia-se dificuldades) com que se deparou. O artigo começava assim: “O leitor pode pensar que conhece a polícia, através das inúmeras permutações de que a luta contra o crime já foi alvo no cinema ou na TV. Mas sabia, por exemplo, que a polícia tenta apenas resolver dois em cada três crimes que são denunciados?” O motivo, naturalmente, prende-se com o clássico “recursos humanos disponíveis”, mas também que os dois casos escolhidos são sempre os mais simples, de mais fácil resolução, para que os agentes possam transitar rapidamente para novos casos – e, mais uma vez, dois em cada três…

Quando Jed Mercurio começou a escrever esta série policial fez aquilo que pareceria natural: alinhavou o argumento da cena inicial do primeiro episódio (uma cena que corre mal e resulta numa morte) e enviou-o para a Polícia, com um pedido de apoio técnico. A cooperação da polícia foi recusada com base no argumento de que o facto descrito na cena inicial (que era verdadeira) “não era representativo”. Felizmente, Jed recebeu ajuda por portas travessas, através de polícias já reformados e muita informação retirada de blogues anónimos da autoria de polícias ainda no activo, como aconteceu com “Inspector Gadget” e “PC Copperfield”.

Cada uma das séries é composta por cinco (às vezes seis) episódios. A primeira foi filmada em Birmingham, embora o nome da cidade não seja referido: mas há mapas afixados na parede e muitas vezes pode ver-se nos telemóveis o código de área 0121 – Birmingham… Já as séries posteriores foram rodadas na Irlanda do Norte, pela BBC local. Basicamente, o corpo de polícia central é o AC12 (AC de anticorrupção) e são estes que correm atrás dos outros polícias. É verdade que nem todos os membros do AC12 são aquele exemplo de virtude que seria de esperar. Nem todos, escrevi eu? Mentira: todos eles têm os seus podres e falhas, embora uns sejam mais mauzinhos do que outros. E há os que são péssimos, naturalmente.

Parece que ao nível dos clubes – até agora o Benfica, o Moreirense e o Braga – o futebol nacional anda, ao que se diz, metido num grande imbróglio. Há acusações da mais diversa ordem e o Braga e o Benfica têm agendados jogos à porta fechada. É uma quebra de receitas, que fará mais falta porventura ao Braga do que ao Benfica: mas como foi interposto um recurso (não são sempre?) este tem um efeito suspensivo, e empurra-se a coisa para segundas núpcias. Mas há acusações piores: e enquanto elas são investigadas (porque tudo se investiga neste país, mesmo sem cá termos o AC12) onde diabo param os detidos daquilo a que se poderia chamar “operação Alcochete”? Felizmente que estas complicações não afectam as camadas mais jovens dos profissionais do futebol, que ainda um dia destes vimos vencer a Itália numa competição que não é despicienda, a Taça das Nações. É que os vencedores dos grupos têm acesso directo ao próximo Campeonato da Europa – sem necessidade de andarmos com aquelas aflições e máquina de calcular em punho…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Quando se pega nos talentos de Maria Rueff e Ana Bola, lhes damos um toque de verniz (ou tiramos, já não sei) e lhes damos um texto com graça, surge “VIP Manicure”, uma experiência que já fora tentada, pelo menos, na Gala dos Globos de Ouro. Elas vão óptimas, o texto não é datado – é, até bastante actual – e as graças funcionam. Ana Bola é óptima a dar cabo da língua portuguesa, dos patronímicos e afins e, para que a coisa corresse ainda melhor àquelas duas manicuras de centro comercial, até puderam contar com a presença (VIP) de Luciana Abreu.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4225 de 14 de Setembro de 2018

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