Semanário Regionalista Independente
Sábado Novembro 17th 2018

“BBC – As Crónicas de TV”

Quando me bate uma saudade de cinco anos…

Bernardo de Brito e Cunha

Sabem todos aqueles que fazem o favor de me ler com regularidade que gosto de uma boa telenovela – o problema é que telenovelas há muitas, mas muito raramente são boas. A última telenovela boa – a bem dizer era uma telenovela notável e marcante – chamou-se “Avenida Brasil” e era da Globo, naturalmente… e de 2013. Mas antes de ser da Globo, a novela era todinha de João Emanuel Carneiro, que a escreveu. Este homem fez um trabalho notável: enquanto “Cheias de Charme”, de Filipe Miguez e Izabel Oliveira, é protagonizada por empregadas domésticas e cantores de electroforró e sertanejo universitário, “Avenida Brasil”, de João Emanuel Carneiro, tem 79 porcento das suas personagens divididas entre jogadores de futebol e cabeleireiras, com os pés firmemente plantados no quotidiano da classe C – a “nova classe média”. As casas de personagens centrais como Carminha (Adriana Esteves), em “Avenida Brasil”, primam por uma ostentação exagerada não necessariamente alinhada com o bom gosto clássico, como parece que os responsáveis pelas novelas procuram.

Ao contrário do que afirmou Silvio de Abreu, quando disse que actualmente as novelas demoravam a “pegar” porque a classe C tem raciocínio lento, “Avenida Brasil” começou com uma trama extremamente ágil e não dispensou o comentário social que sempre marcou as melhores tramas do horário da noite. É claro que há cálculo – e risco – nessa aposta bem-sucedida da Globo. A emissora esteve atenta a uma oportunidade de mercado. Nos últimos sete anos, 40 milhões de pessoas ascenderam das classes D e E para a C. Um público consumidor que ninguém quer perder, naturalmente. E o meio publicitário está ávido de canais para estabelecer a comunicação entre os seus clientes e a classe C. Por cá e à SIC, isto tem passado bastante ao lado… Até porque a SIC, que sabia estar a transmitir uma novela de 179 episódios, não teve qualquer pejo em a retalhar, a ponto de ainda tanta água estar por correr e o canal português já ir nos 200… E, aparentemente, sem perceber que estava a quebrar relações e fios condutores.

E tudo isto para querer dizer o quê? Que por cá não temos queda (ou capacidade monetária) para ir a este pormenor, para fazer este tipo de estudo sociológico das pessoas a quem queremos dirigir um produto, qualquer que ele seja. Excepto… quando falamos de Rui Vilhena. O autor Rui Vilhena escreveu telenovelas marcantes, na área da ficção para televisão, e com características muito próprias, a sua “assinatura”, por assim dizer. “Ninguém como Tu” foi a telenovela portuguesa que mais contribui para cristalizar a estratégia de suspense do “quem matou?”. A adesão do público veio a repercutir-se ainda em “Tempo de Viver”, com o mistério da pergunta “quem é o Tubarão?”, não sendo possível esquecer a série “Equador”, que não escreveu, mas adaptou para a TVI em 2008. “Sedução”, de 2010 (onde continua a existir o “quem matou?”) é um dos trabalhos de Rui Vilhena mais intricados e bem-sucedidos.
Regressou ao Brasil, a convite do autor brasileiro Aguinaldo Silva, e passou a integrar a equipa de colaboradores da telenovela “Fina Estampa”, exibida pela Rede Globo na faixa das 21h. Em 2014, assinou a sua primeira novela em território brasileiro, intitulada “Boogie Oogie” e transmitida também pela emissora carioca na faixa das 18h. Creio que voltará para o ano, outra vez para a TVI, com “Vestida para Casar”, embora não jure. Tenho saudades dele: porque uma história sua é sempre uma coisa com pés e cabeça… e com muito sentido de humor.

Nota final. Nunca mais voltei à companhia de Manuela Moura Guedes, fiquei muito debilitado com os dois primeiros programas. Nunca mais me arrisquei, apesar de já ter tomado a vacina este ano, e acho que ela não dá pela minha falta. Tenho preferido o dissidente da SIC Miguel Sousa Tavares, que às segundas-feiras edita o jornal da noite da TVI. Julgo que o trabalho de edição, que vai fazendo ao longo do dia, o cansa: e quando chega a noite já lhe falta a energia para o dislate, para o disparate, o desconchavo e os despautérios que marcaram os seus comentários na SIC. Tanto melhor.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Esperemos que Obama seja um homem de boa memória: e que, ao menos, termine com aquela atitude cowboyesca do seu antecessor, aquela mania de “invadimos primeiro pela força e depois logo se vê se temos razão. E, mesmo que não a tenhamos, ficamos lá na mesma, porque o petróleo nos interessa”. Esperemos que isto acabe: e já não será pouco.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4233 de 9 de Novembro de 2018

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