Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Agosto 22nd 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

É altura para falar de Jesus e de outras coisas

Bernardo de Brito e Cunha

Conheço Manuel Luís Goucha desde o tempo em que tinha um forte e negro bigode farfalhudo e fazia as manhãs da RTP, directamente do Porto. Sempre me pareceu honesto, como homem e profissional e ele sabia a minha opinião a seu respeito, que expressei muitas vezes tanto neste espaço como noutros, entretanto desaparecidos. Talvez fosse por ter esse conhecimento que, no dia em que decidiu sair da RTP, uma tarde me tenha aparecido na revista TV Guia para me dar conhecimento desse facto em primeira mão. Entretanto fiz-lhe uma entrevista para uma revista de um outro espectro e as qualidades que lhe conhecia confirmaram-se.

Ocasionalmente acompanho a TVI, embora uma série policial canadiana da RTP2, “19-2” de seu nome (obrigado, Ana, pela sugestão!) e uma outra de que já aqui falei, “Lei e Corrupção”, também da “2”, tenham absorvido a minha atenção nos últimos tempos. Acontece que as duas novelas da TVI actualmente em exibição não me têm atraído, mas as publicidades e promos acabam por me ficar no ouvido. Especialmente a que nos sugeria que víssemos “No Monte do Manel”. Especialmente porque durante muito tempo ouvi Manuel Luís Goucha invocar a sua privacidade bem como a do seu companheiro. E, de repente, isto transforma-se numa novela ad lib em que, primeiro, se fica a saber que Cristina Ferreira convidou Rui, o companheiro de Goucha, a trabalhar com ela; em que depois se fica a saber que, contra vontade de Goucha, que queria trabalhar a solo, José Eduardo Moniz lhe terá imposto uma partenaire, que começará a trabalhar com ele em Janeiro, vinda do Porto Canal; e, finalmente, este espaço de duas semanas em que o “Você na TV!” é feito a partir do monte de Goucha – e com a participação de Rui, com quem Goucha terá entretanto casado. Caramba, já pareço uma revista cor-de-rosa… Mas acho estranho que esta reivindicação que Goucha manifestou constantemente, a do seu direito à privacidade, se tenha desvanecido. É certo que mostrar o seu monte, que é uma segunda habitação, não é rigorosamente o mesmo que mostrar a sua casa de Fontanelas. Tal como é verdade que numa produção para a revista Cristina esse monte foi utilizado para fotografias, mas via-se muito pouco do espaço. Mesmo assim, que terá feito MLG mudar de opinião e abrir as portas da (segunda) casa?

Referi aqui, de passagem, que as novelas actuais da TVI não me prenderam. E têm uma agravante: antes da estreia de “A Teia” o seu intérprete principal foi ao “Jornal das 8” tecer loas à novela em que participava. Acontece que Diogo Morgado, é dele que falo, também já foi Jesus, filho de Deus para quem em tal acredita – ou talvez não seja assim tão simples. Mas acho grave que “Jesus”, que é um homem que não conheço, mas em quem, por tradição, acredito, venha aos ecrãs da televisão e falte à verdade. É feio. Repare-se que não disse que é “mentira”, porque isso me poderia valer o fogo do Inferno, por estar aqui a blasfemar – caso ele exista mesmo e o Inferno também. Mas Diogo-Jesus-Morgado foi ao “Jornal das 8” dizer que a novela era do suco da barbatana. Talvez Jesus não saiba muito de televisão, o que é compreensível, mas Diogo Morgado tem obrigação de conhecer alguma coisinha. E vai de dizer coisas como “quem vir o primeiro episódio nunca mais deixará de ver” – uma falsidade de que eu próprio sou testemunha viva. Ao segundo episódio já não podia com aquilo. Mas Diogo disse mais: que de episódio para episódio as diversas intrigas e mistérios são introduzidas com tal mestria, que ele nunca viu coisa assim. Foi como eu: nem dei pelas intrigas e mistérios terem dado entrada. E a ser assim, antes que me acusassem de ser burro, para além de dizer falsidades em relação ao filho de Deus, desisti de ver a novela. E não é que me sinto muito mais feliz e saudável, bem como a respirar muito melhor e a dormir tranquilamente?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Sousa Lara, o Subsecretário de Estado que achou que “O Evangelho segundo Jesus Cristo” não devia, por razões morais, concorrer a um prémio no estrangeiro, o Prémio Literário Europeu, surgiu num documentário com que a RTP assinalou os 10 anos da conquista do Nobel da Literatura por José Saramago. Deu-se-lhe tempo de antena em imagens de arquivo, a dizer o que disse, e deu-se-lhe mais tempo de antena a reiterar agora o que dissera na altura. Se o homem tivesse juízo tinha-se calado, que já dissera asneiras suficientes aí há uns 16 de anos: “A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses.” Eu, se fosse Sousa Lara, não conseguiria viver com o peso de ter censurado, depois do 25 de Abril, um homem que seis anos depois viria a receber o Nobel. Eu teria vergonha de voltar a dizer as mesmíssimas coisas. Mas, espantosamente, ele não teve qualquer pudor. Este homem, como diria Eça, só à bengalada.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4239 de 21 de dezembro de 2018

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