Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Junho 25th 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

Realidades vs ficções: uma série portuguesa

Bernardo de Brito e Cunha

Há perto de uma semana, durante um intervalo na transmissão de um jogo de futebol na TVI, vi em rodapé o anúncio da estreia de uma “novela”, “Maria Madalena”, para muito breve. Pus-me imediatamente a fazer contas de cabeça: para transmitir quando? Para substituir alguma das actualmente em exibição? Não me parece, mesmo dando-lhes muito pouca atenção, que alguma esteja para acabar. Imediatamente pensei em “Onde Está Elisa?”: a jovem já foi encontrada há algum tempo e está no hospital onde irá permanecer ainda, uma vez que quando foi encontrada tinha sido atingida a tiro. Também não devia ser por aqui. Por outro lado, uma “novela” (ponho-o entre aspas porque tem apenas 60 episódios, número anormalmente baixo para uma novela) sobre Maria Madalena faria mais sentido na altura da Páscoa: ora, tendo começado no passado dia 13, irá terminar antes da Páscoa… Esta relação também não convencia.

Para mais, apanhou-me de surpresa: passados uns dias, depois de ver o Jornal da Tarde deixei a televisão na TVI e, de repente, começa “Maria Madalena”. A surpresa veio do facto de ser falada em português, mas do Brasil: que acontecera à parceria TVI-Plural? Isso não sei: mas aquilo de que dei conta foi que o português falado não batia certo com as boquinhas dos intérpretes… Vai-se a ver e a novela não é brasileira: “Maria Madalena” é uma série (assumamo-lo, caramba!) mexicana produzida pela Sony e pela Dopamine local. O papel principal foi entregue a María Fernanda Yepes, que parece ser muito conceituada por aquelas paragens. Coisas estranhas, ou mais coisas: embora produzida no México, a série teve estreia no canal TVN… do Panamá e chegaram-me rumores, não confirmados, de que a série terá estreado em Angola e Moçambique, em Dezembro do ano passado.

Mas há ainda dois pormenores: por um lado, a TVI colocou esta série à hora de almoço, a seguir ao Jornal, e logo seguida pela novela “Remédio Santo” (que já era boa quando foi exibida pela primeira vez e não melhorou com o tempo) e pelo programa de Fátima Lopes. Porquê? Muito simples: as audiências da SIC nesse mesmo intervalo (a novela “Mar Salgado”, que tantas horas felizes me deu, mais o programa “Júlia”, a que se soma essa brilhantíssima novela que é “Avenida Brasil” e que não me canso de gabar aqui e a quem me quiser ouvir) batem as da TVI. E umas décimas aqui e outras ali ameaçam seriamente os não sei quantos meses da tão propagada liderança do canal de Queluz. E, por outro, o facto de a TVI, no início das suas emissões, ter ficado conhecida por emitir novelas dobradas (maioritariamente venezuelanas), e só no início dos anos 2000 apostar na ficção nacional. “Todo o Tempo do Mundo”, “Jardins Proibidos” e “Olhos de Água” foram as apostas que rasgaram com o passado de novelas dobradas em português do Brasil.

Devo dizer-vos, já que vos deixei na dúvida, que a série portuguesa “Teorias da Conspiração” começou a encaixar as suas peças. O seu fio condutor cada vez se parece mais com a realidade. Razão têm os seus autores em fazer notar sempre que esta história segue a regra base do contador de histórias – podia ter acontecido, mas é tudo ficção. E, no entanto, são demasiadas as coincidências para que não deixemos de sorrir: um grupo, o Grupo TINA, que tem uma influência tão grande que até consegue fazer com que o preço da água num certo município aumente 500 porcento; um banco que abre falência e que é comprado por tuta e meia; um primeiro-ministro que tem um ar de corrupto que até magoa e exige aos seus assessores uma estratégia para que a comunicação social não “faça ondas”; uma jornalista que começa a investigar e quer publicar as suas reportagens mas cujo editor (ah, os editores!) é pressionado para que as suas peças não sejam impressas; um procurador geral (reformado) que tem um blogue onde vai escrevendo anonimamente sobre tudo o que acabo de descrever… E ainda querem que acreditem que “podia ter acontecido, mas é tudo ficção?”

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Ninguém diria, pelo passado de Pepê Rapazote na área da representação – e digo isto propositadamente, porque o rapaz é licenciado em Arquitectura e preferiu ser actor – que as coisas poderiam melhorar. […] No entanto, apesar do “cadastro”, foi convidado para uma nova série, “Pai à Força”. E esta, ao contrário das anteriores, até parece que foi escrita de propósito para ele. Faz de Miguel, um homem de 40 anos, que é um solteiro inveterado, que vive de relações ocasionais, sobretudo conquistas de uma noite. Mais do que uma opção consciente, esta maneira de estar na vida é um trauma: é que Miguel nunca conheceu os pais, tendo crescido num lar de acolhimento. A falta de referências paternais e de afecto, fizeram com que nunca conseguisse estabelecer uma relação adulta e estável com as mulheres.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4247 de 22 de Fevereiro de 2019

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