Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Abril 22nd 2019

“BBC – As Crónicas de TV”


Nossa Senhora de Paris, nosso drama

Bernardo de Brito e Cunha

Milhões de espectadores estupefactos viram na última segunda-feira pelas televisões, tal como eu, um fogo incontrolável devastar a catedral de Notre-Dame de Paris, um dos monumentos mais famosos do mundo, visitado anualmente por cerca de 13 milhões de pessoas, um dos primeiros e mais notáveis exemplos da arquitectura gótica. O fogo irrompeu ao final da tarde e, pela meia-noite, com o fogo ainda activo, já tinha ruído o telhado, e a imponente agulha da catedral (a sua parte mais visível e, durante centenas de anos o ponto mais alto da capital francesa), com as suas centenas de toneladas de pedra e ferro, afundara-se nas chamas.

Sem que alguém possa neste momento prever qual será, no final, a verdadeira extensão dos danos, as edições online dos jornais franceses já titulavam na segunda-feira ao final da noite que a estrutura e as torres se iriam salvar. E terá sido também possível preservar o essencial dos tesouros móveis que se encontravam no interior da catedral, retirados no decorrer das obras de restauro. Segundo um padre terá assegurado no local ao repórter do jornal francês Libération, “todas as obras de arte foram salvas e o tesouro da catedral está intacto”. Na capa que o jornal preparou para chegar esta terça-feira às bancas, a imagem da catedral a arder é acompanhada por apenas duas palavras: “Notre Drame”. Mas o drama podia ter sido bem maior, tendo em conta que se trata de um monumento que recebe cerca de 30 mil pessoas por dia. Há notícias de um bombeiro ferido com gravidade, mas tanto quanto se sabe o fogo não terá feito outras vítimas.

Pedro Proença, advogado que tem ocupado espaços de comentário nos canais da TVI nos últimos quatro anos, foi dispensado “com efeitos imediatos” na sequência de um processo de recurso num caso de violação. Em causa está um pedido de recurso apresentado pelo advogado que ocupava espaços de comentário dos programas “Prolongamento” (TVI24) e “A Tarde é Sua” (TVI) na defesa de um constituinte seu que foi condenado a oito anos de prisão pelo crime de violação da sua filha, sustentado numa argumentação que questionava a isenção da juíza pelo facto de ser mulher e mãe, e pedia a sua substituição… por um homem.

“As razões evocadas pela defesa são contrárias aos valores e princípios que orientam a TVI na abordagem a um dos problemas mais sensíveis e gritantes da nossa sociedade: a violência doméstica. Porque assentam numa discriminação inaceitável, da condição de mulher e de mãe, que no entender do criminoso e do seu advogado compromete a isenção da juíza”, justifica a estação de Queluz num comunicado emitido na sexta-feira e onde anuncia que “a direcção de informação e a direcção de programas da TVI dispensam, com efeitos imediatos, toda e qualquer colaboração de Pedro Proença”.

A estação esclareceu que “não está em causa a liberdade do exercício da profissão que cada um escolhe” mas acrescentou que “ao dispensá-lo dos seus espaços de comentário semanal, as direcções de informação e de programas da TVI estão a dar um sinal inequívoco: a recusa de, nesta ou em qualquer outra circunstância, permitir que as suas antenas promovam colaboradores que se vinculem a princípios que repudiamos e consideramos nocivos à sociedade que queremos”. Por uma vez, a TVI esteve bem.

E de repente, ao fim de uns 18 anos de companhia nas manhãs da SIC Notícias, nomeadamente no comando do espaço “Opinião Pública”, eis que a jornalista Carla Jorge de Carvalho abandona os pequenos ecrãs e a própria SIC. Fiquei a sabê-lo quando, na última sexta-feira, a jornalista a quem passara a palavra para falar de desporto se despediu dela em directo. E agora? Se Carla Jorge de Carvalho me transmitiu sempre uma sensação de grande profissionalismo e de garantia de um trabalho aprofundado e sério, bem como da inteligência mostrada em muitas, tantas circunstâncias (nomeadamente quando lhe “calhava” o espaço de Nuno Rogeiro), em que televisão ou em que jornalista poderei confiar da mesma maneira? Habituar-me a quem chegar para a substituir? Não me parece… Perdeste um espectador, Francisco!

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Foram os bispos portugueses que, nas suas homilias de Páscoa, contrariaram o Papa em diversas das suas posições, como foi o caso do bispo católico português D. Ilídio Leandro que afirmou, em mensagem divulgada pela internet, que os pacientes com SIDA devem usar preservativos se decidirem manter relações sexuais. E o mesmo D. Ilídio, que é Bispo de Viseu (de Viseu, caramba!) veio defender o divórcio em casos de violência doméstica, que o ano passado aumentou 10 porcento. E digam-me, à luz dos ensinamentos de Cristo, quem tem mais espírito de Jesus: se o Papa Bento XVI, ou D. Ilídio Leandro.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4255 de 19 de abril de 2019

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