Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Junho 25th 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

Ai Portugal, Portugal…

Bernardo de Brito e Cunha

Num só fim-de-semana, o último, duas coisas aconteceram em dias consecutivos que, certamente, dirão muito da forma de ser dos portugueses e da nossa posição perante as coisas. Uma semana antes, Bruno Lage, nas comemorações da conquista de mais um campeonato nacional de futebol fez um discurso pouco habitual nesse tipo de festas: em primeiro lugar, pediu a todos que recolhessem o lixo no Marquês de Pombal, depois da festa terminada – o que, como se estava mesmo a ver, não aconteceu; e depois, disse qualquer como isto: que era tempo de chamarmos os adversários pelo seu nome, e não com outras designações menos próprias, de reconhecermos quando eles fossem melhores do que nós e não de arranjarmos desculpas para o nosso insucesso (ou o da nossa equipa) em fenómenos exteriores. Pois sim, bem prega São Tomás… Ou Bruno, tanto faz.

Nem uma semana tinha passado e pumba!, lá estava um portuga a mostrar o tão apregoado fair play. Foi no final da Taça de Portugal, entre o Sporting e o Porto, jogo que teve um pouco de tudo: mãos na bola (e não eram os guarda-redes), rasteiras, encontrões, foras de jogo, ressaltos, eu sei lá! A verdade é que, ao fim do tempo regulamentar, com falhanços de parte a parte, as equipas estavam empatadas. E no fim do prolongamento, com tentativas malogradas de ambos os lados, empatadas estavam. Não havia como resolver a coisa que não fosse recorrendo ao último recurso, a marcação de penaltis e, aí, no meio de falhanços repartidos, brilhou o guarda-redes do Sporting, que conseguiu defender uma grande penalidade. Não havia muito a dizer: quando uma final chega a este momento em que a sorte também conta, há que aceitar o resultado – embora não seja fácil ter chegado até ali e, num momento, puf!

Tendo já passado por uma final com o mesmo Sporting (em que Sérgio Conceição mandou os jogadores para o balneário, sem assistir à entrega da Taça da Liga ao Sporting), desta feita Sérgio subiu à tribuna do Jamor e, depois de cumprimentar o Presidente da República e todas as individualidades presentes, de repente vê-se diante de Frederico Varandas de mão estendida: ignorando a mão, murmurou algumas palavras ao ouvido do presidente leonino. Quais, não se sabe ao certo. Mas o Correio da Manhã, dois dias depois, veio garantir que essas palavras foram “Não sou hipócrita e por isso não o vou cumprimentar. Para ganhar não vale tudo”, terá dito Sérgio Conceição ao mesmo tempo que não quis cumprimentar o presidente do Sporting. No final do jogo que entregou ao Sporting a Taça de Portugal, Sérgio Conceição não esqueceu a queixa que foi apresentada pelo Sporting contra o treinador do FC Porto após um outro jogo entre as duas turmas, para a liga principal. O Correio da Manhã não especifica onde obteve a informação mas, além de revelar o que Sérgio Conceição disse a Frederico Varandas, o jornal considera que a estratégia de comunicação do Sporting — designadamente no que diz respeito à queixa contra Conceição — tem sido muito parecida com o tipo de política que era seguido pelo anterior presidente dos “leões”, Bruno de Carvalho. Frederico Varandas, oficialmente, não quis alimentar a polémica. No final do jogo, quando questionado sobre a interpelação de Sérgio Conceição, chutou para canto. “Não percebi o que foi dito, nem consegui ouvir. O barulho dos festejos era muito alto, não sei… São formas de estar e educação diferentes, mas isso não interessa para nada”, comentou.

No dia seguinte era domingo de eleições europeias. Com tempo ameno. Meio mundo, ao ver essa espécie de domingo de Verão antecipado, veio apelar ao voto: que havia tempo para votar e para ir à praia e coisas desse teor. O Presidente da República veio dizer que temia que a abstenção ultrapassasse os 70 porcento, mas tal não se verificou: foram “apenas” 60 e muitos por cento os que faltaram… E no entanto, se tiverem de protestar, aí estão eles todos aos gritos de “o Governo isto!, a Europa aquilo! e Aquela gente só se quer é encher!”, esquecendo que, no momento da escolha de quem poderia ser melhor, eles não tinham estado lá.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Manuela Moura Guedes convidou o bastonário da Ordem dos Advogados para ser entrevistado e, depois de algumas provocações mais ou menos ligeiras, a que ele se ateve de responder, decidiu chamar a Marinho Pinto ‑ “bufo”. O homem não gostou, como se compreende. E por maior ou menor simpatia que sintamos pelo bastonário, a verdade é que quando nos chamam bufos, o interpelante deve estar preparado para tudo – até, na circunstância, que o bastonário lhe tivesse respondido “E a senhora é uma bufa!” O que, diga-se em abono da verdade, não fez. Mas fez outras coisas, como dizer-lhe que ela era uma jornalista que dava mau nome aos profissionais da TVI – o que eu receio ser verdade; acusou-a de proceder a julgamentos sumários naquele programa – o que eu também acho ser verdade; de acusar, sem provas, pessoas naquele programa – o que acho que também não foge à verdade; de desrespeitar o código deontológico – “se é que o conhece” ‑ o que também me parece ser uma verdade incontornável, e que ela dava cabo do nome dos bons profissionais que existiam naquela casa, arrastando (quase) tudo e (quase) todos no lamaçal que era o seu programa.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4261 de 31 de maio de 2019

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