Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Agosto 19th 2019

“BBC – As Crónicas de TV”


“Está de ananases!”, disse Eça a abrir


Bernardo de Brito e Cunha

Na RTP, desde a última sexta-feira, 13 episódios para redefinir Eça de Queirós no imaginário colectivo como um diplomata anti-escravatura que também viria a ser o autor de “Os Maias”, no ano em que se comemora o centenário das relações diplomáticas entre Portugal e Cuba. Elmano Sancho interpreta a figura do escritor diplomata, Francisco Manso realiza. Chama-se “O Nosso Cônsul em Havana”, numa óbvia referência a “O Nosso Homem em Havana”, de John Le Carré, em que o “homem” vendia aspiradores e se transforma numa espécie de espião muito especial, para ganhar uns dinheirinhos a mais para os estudos da filha. Também Eça será um cônsul muito especial, mas também com grandes dificuldades monetárias, como se verá…

Em 1871 caiu o Governo que proibira as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, lideradas por Antero de Quental, onde Eça de Queiroz interviera. No ano seguinte Eça é nomeado Cônsul em Havana, por Andrade Corvo, Ministro dos Negócios Estrangeiros do novo Governo de carácter mais liberal. Eça de Queirós (1845-1900) teve toda uma carreira diplomática que o levou não só a Cuba mas também ao Egipto, EUA ou Reino Unido. Aos 27 anos, entre o final de 1872 e o início de 1873, estreava-se na carreira diplomática como cônsul português em Havana. Para trás ficava o seu trabalho como jornalista e de administrador do concelho de Leiria – e também a escrita de “O Crime do Padre Amaro”, em Leiria, que só seria publicado já quando era cônsul em Inglaterra. O seu mandato em Havana que acabaria por ficar marcado pela oposição de Eça ao uso de escravos chineses, saídos da China pelo território português de Macau, na cultura da cana-de-açúcar pelos fazendeiros e colonos espanhóis. Foi, porém, um curto consulado, interrompido por cinco meses e meio de viagem pela América do Norte e em 1874 já estava de volta a Lisboa para depois partir para Newcastle e Bristol.

Em Cuba, colónia espanhola, continua a escravatura. Existem cerca de cem mil contratados chineses que saem da China através de Macau com documentos portugueses. Eça segue para Havana com o encargo de tentar resolver o problema dos chineses, tratados como escravos nas plantações de cana-de-açúcar. Durante o tempo em que lá permanece, Eça não deixa por mãos alheias os seus méritos de sedutor e vive um amor escaldante com Mollie, filha do general americano Bidwell, uma jovem moderna e apaixonada que se sente tão à vontade à mesa de póquer como no jogo da sedução. Sendo a diplomacia um lado menos conhecido do autor de “Singularidades de uma Rapariga Loira” — conto que escreveu em Havana —, o escritor é das figuras oitocentistas mais reconhecíveis pelos portugueses.

Seguiremos também a história de Lô, uma menina chinesa que embarca clandestinamente para Cuba e que é ajudada por um marinheiro de bom coração, que a entrega às freiras do Convento de Santa Clara. Para ajudarem Lô a escapar das garras do grande traficante de escravos da ilha, Don Zulueta, vão convergir pessoas de bem e defensoras da liberdade: o jornalista e livre-pensador Vicente Torradellas, D. Antónia Morales, proprietária de terras, a Madre Filomena, o próprio Eça de Queiroz e o seu amigo Juan, um rapazito engraxador cheio de manhas e artimanhas necessárias à sobrevivência numa cidade como Havana.

E agora o fait divers sobre a (crónica) falta de dinheiro do corpo diplomático. O próprio Eça descreve essa experiência e brinca com o facto de a carreira diplomática não lhe ter deixado grandes impressões, no sentido material. “Ainda veremos os jornais estrangeiros noticiarem: ‘Ontem, na Rua de… caiu inanimado de fome um indivíduo bem-trajado. Conduzido para uma botica próxima o infeliz revelou toda a verdade — era o embaixador português. Deram-lhe logo bifes. O desgraçado sorria, com as lágrimas nos olhos.’”, escreveu em “Uma Campanha Alegre” (1890-91).

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Eu, de facto, não teria nunca queda para político: nunca seria capaz de vir dizer, perante uma câmara de televisão, as barbaridades que eles dizem. O que lhes vale é a proporcionalidade: quando quase dois terços de um país nem vai às urnas, de quem é a culpa se não desses mesmos líderes? Por um lado, conseguiram convencer uma minoria dos habitantes a votar neles: mas não conseguiram levar os outros 60 e picos por cento até às urnas, e isso é uma enorme derrota conjunta de todos eles. E há já quem, ganhando isto ou aquilo numas eleições europeias nas quais votou essa minoria, se sinta suficientemente forte para cantar de galo e começar a fazer ameaças ao governo eleito democraticamente (quer eles gostem quer não) e que só será referendado daqui a um bom par de meses. Ponhamos cada coisa no seu sítio e não baralhemos o povo, valeu?»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4263 de 14 de junho de 2019

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