Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Agosto 22nd 2019

“BBC – As Crónicas de TV”


O destino não tão fabuloso de duas Helenas

Bernardo de Brito e Cunha

Confesso que não me recordo (até parece que estou na Assembleia da República, numa qualquer comissão de inquérito…) se escrevi sobre a primeira temporada de uma série dramática norueguesa: o seu nome é “Jogar em Casa” (RTP2, às 22h00) e conta a luta de uma mulher para se tornar treinadora de uma equipa masculina de futebol – a primeira na história do futebol europeu, numa altura em que o tema do sexismo no desporto salta para as primeiras páginas dos jornais.

Helena tem, nessa primeira temporada, que lutar contra a forte resistência dos jogadores e dos adeptos do Varg Il, enquanto procura equilibrar a vida pessoal de mãe solteira de uma filha adolescente e provar que as mulheres são tão boas como os homens no campo de futebol. O seu maior inimigo é o craque Ellingsen que está disposto, no máximo, a aceitá-la como seu técnico-adjunto. Mas a treinadora consegue alguns bons resultados, descobre na pequena cidade um craque e faz com que o clube, de praticamente condenado a descer de divisão, se mantenha na primeira liga.

O que torna a série muito interessante, para lá desta questão de igualdade de género, é o facto de a série reflectir o que se passa com todos os clubes pequenos, mesmo em Portugal: falta de dinheiro, de apoios, de jogadores… Sendo que, sempre que algum destes se realça, começa a ser cobiçado pelos “grandes”. E se Helena e a sua equipa sobreviveram à estreia na primeira liga (venceram o poderoso e conhecido Rosenborg), o Varg perdeu o patrocinador principal e Adrian Austness, o tal craque, incentiva o caminho através de amadores e talentos locais, mas o clube depressa entra em crise e o próprio Adrian se vê dividido e a ter de fazer uma escolha: permanecer no Varg e em Ulsteinvik ou atrever-se a voltar para o mundo do futebol profissional, longe dos constantes problemas do clube, de Helena, e nos braços de Camilla, filha daquela. Enquanto Helena lida com a potencial venda de Adrian e a falência eminente do clube, a salvação aparece na forma de um potencial novo dono. Mas à medida que o investidor dá a conhecer as suas intenções, coloca as ambições de Helena contra a vontade de o administrador de preservar a alma do clube, levando a um choque de vontades onde só um pode sobreviver.

À medida que a segunda temporada avança, os homens do Varg insurgem-se contra as mulheres que tomaram conta das suas vidas: Espen, o administrador, luta contra Helena e a nova dona do clube, Petra; Adrian está preso num triângulo complexo, e tenta libertar-se da lealdade à treinadora e à sua filha Camilla; Michael Ellingsen, que enfrenta um futuro sem futebol, tenta reconquistar o controlo da família no tribunal. Se na primeira temporada acompanhámos uma mulher que reivindicava o seu lugar num mundo masculino (tivemos em Portugal uma treinadora que foi notícia quando foi treinar uma equipa masculina, mas de quem nunca mais ouvi falar: o seu nome também é Helena, Costa de apelido, e é uma treinadora de futebol portuguesa que treinou a Selecção Feminina do Irão até ao Verão de 2014, passando, depois, a treinar a equipa masculina do Clermont Foot Auvergne 63, da segunda divisão francesa, no que foi a primeira contratação de uma treinadora para uma equipa profissional masculina de futebol de um campeonato de alto nível. Não foi longa a sua presença em França, tendo regressado a Portugal, onde se dedicou ao comentário desportivo em canais de televisão), na segunda estamos a seguir a tentativa masculina de rebelião contra essa nova realidade.

Não consigo perceber a TVI, sobretudo nesta altura em que perde diariamente audiências para a SIC. O programa de Manuel Luís Goucha e da menina que veio substituir Cristina Ferreira, o “Você na TV”, descaracterizou-se completamente e a sua última hora inclui, imagine-se!, um concurso culinário. Não há paciência para ver aquilo que não passa de um programa dentro de outro programa, uma espécie de “Masterchef” que não vai além do “O Chefe É Você”. Tal como não há pachorra para o chefe Olivier enquanto jurado. Como é que o homem se atreve a aceitar essa incumbência e depois diz, muitas vezes, “eu nem sequer vou provar isso”, quando confrontado com um prato apresentado?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Não sei se isto se pode considerar propriamente preconceito, mas tenho, como certamente grande parte dos portugueses, a ideia de que as figuras/personagens que aparecem nas revistas chamadas cor-de-rosa fazem parte de um grupo da sociedade completamente inútil, voltado para o que menos interessa, cuja única preocupação na vida será o croquete ou a tapa – consoante o que for de borla. Em suma, creio eu, à semelhança do que acontece com certamente grande parte dos portugueses, aquela gente é um cóio de indigentes, de penduras, etc, etc. Só que existe (pelo menos) uma excepção, conforme descobri – talvez atrasadamente – na outra quinta-feira. Essa excepção dá pelo nome de Bibá Pitta.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4265 de 28 de junho de 2019.

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