Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Novembro 20th 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

A TVI já está a arder?

Bernardo de Brito e Cunha

A intenção de compra da TVI pelo Grupo Cofina, já tem uns tempos. Soube-se agora que o CEO da Cofina, Paulo Fernandes, antes de oficializar o interesse em comprar a Media Capital esteve reunido informalmente com o primeiro-ministro, com a Autoridade da Concorrência (AdC) e com Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Afastado destes encontros esteve Marcelo Rebelo de Sousa, mas o Presidente foi informado do negócio por António Costa. A ideia do empresário foi garantir que nenhuma das entidades se oporia à operação, pois só assim avançaria para negociações com a espanhola Prisa. Mas, meu Deus, sabemos porventura quais as opiniões da ERC e da AdC acerca disto tudo?

E no entanto, mesmo sem conhecermos essas opiniões, um outro problema, parece-me, é que a operação de compra da TVI passa por um prévio aumento de capital do grupo detentor do Correio da Manhã e da CMTV, que será acompanhado pelos actuais accionistas de referência da Cofina mas permitirá a entrada de novos players, por forma a permitir o financiamento do negócio. No sector, fala-se da possibilidade de um desses novos accionistas de referência da Cofina poder vir a ser os brasileiros… (respirem fundo) da TV Record, ligados à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), bem como o próprio bispo Edir Macedo.

O anúncio das negociações só foi oficializado no dia 13 de Agosto, depois de a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) ter suspendido as acções das duas empresas por estar a aguardar mais detalhes sobre a operação – ela e nós… Mas essa confirmação acabou por chegar no mesmo dia, com a Cofina a garantir que estava “em negociações exclusivas” com a dona da TVI. Esse interesse já tinha sido divulgado em Março ao revelar que o grupo espanhol estava em fase de conclusão de um acordo de princípios com um grupo de investidores com ligações aos média em Portugal. Uma operação que deveria ficar abaixo dos 300 milhões de euros.

Desta vez, ao que tudo indica, Paulo Fernandes não queria correr o risco de enfrentar o mesmo desfecho que teve a Altice cerca de dois anos antes. A operação avaliada em cerca de 440 milhões de euros acabou por esbarrar na demora das autorizações necessárias da Concorrência e de outras entidades reguladoras. Assim, a Cofina terá feito algumas exigências no caso da compra da TVI, como é o caso da saída de grandes nomes da estação de Queluz de Baixo. Estão pelo menos quatro nomes em cima da mesa, como é o caso de Judite Sousa, José Alberto Carvalho – que não tem contrato com a Media Capital porque está nos quadros de uma empresa que presta serviços para a TVI, uma prática corrente na estação – e Joaquim Sousa Martins, alguns dos elementos ‘mais caros’ da estação. José Alberto Carvalho garantiu publicamente não saber “de onde veio esta informação nem o porquê”. O jornalista da TVI acrescentou ainda que o seu trabalho “fala por si”.

No entanto, as exigências vão além da possível saída dos grandes nomes conhecidos pelo público, podendo estender-se à grelha de programação e que a marca preponderante será sempre a do CM, estando agendado o fecho da TVI24. A grelha, essa, já está a mexer: por exemplo, o programa de José Eduardo Moniz, “Deus e o Diabo”, não faz parte da nova grelha de programação da TVI, que será apresentada em breve. Aliás, o programa já não é transmitido desde o passado mês de Junho. Sobre esse facto, José Eduardo Moniz remeteu esclarecimentos para a direcção de programas. Também a TVI foi recentemente contactada sobre este assunto mas preferiu “não responder a rumores”, comentando apenas que as possíveis alterações na grelha serão anunciadas “quando for a altura indicada”. Recorde-se, igualmente, que recentemente, no Brasil, José Eduardo Moniz foi apontado como possível reforço da TV Bandeirantes… E Ana Leal? Irá fazer parelha com Tânia Laranjo? Não me parece…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«A suspensão do “Jornal Nacional de 6.ª” da TVI, merece algumas considerações. Em primeiro lugar temos as duas versões mais ou menos oficiais – em termos de vox populi. E segundo essas, das duas uma: ou foi o governo de José Sócrates que teve dedo na coisa, ou então foi a Prisa, proprietária da TVI. José Sócrates negou, a Prisa negou e tudo foi remetido para a administração da TVI em Lisboa. Bom: se um governo se intrometeu e teve a ver com a suspensão de um programa que o atacava é obviamente uma questão de censura. Se não foi essa a circunstância, estamos perante um caso em que a administração da Prisa, passando por cima da Direcção de Informação, o que é gravíssimo, suspendeu um programa. E, das duas, não sei qual é pior.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4272 de 13 de Setembro de 2019

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