Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Outubro 22nd 2019

“BBC – As Crónicas de TV”

Lá anda o RAP a animar a malta…

Bernardo de Brito e Cunha

A pouco mais de uma semana das eleições, a campanha eleitoral está mesmo morna. As entrevistas dos políticos em campanha, regra geral, são pouco aliciantes. Os debates entre os próprios candidatos têm sido também insípidos. Parece que a equipa que trabalha com Ricardo Araújo Pereira na TVI para o programa “Gente Que Não Sabe Estar” ainda é a única que se esforça por mobilizar as hostes e fazer o que faz falta que, já o cantava Zeca Afonso, é animar a malta. E a passagem dos candidatos pelo programa tem sido do mais hilariante que é possível, com cães e tudo. Só falta mesmo, segundo a expressão de Marco Horácio, “mulheres nuas, cavalos e anões” porque quanto ao resto está tudo parado, talvez porque nunca um resultado eleitoral foi tão previsível como o destas eleições. O que é o mesmo que dizer que, se as previsões não se confirmarem, teremos os resultados mais surpreendentes de sempre.

Mas o sucesso de “GQNSE” só vem demonstrar que em termos de televisão já está (quase) tudo inventado e basta ir burilando as arestas. Quem não se lembra de um programa chamado “Gato Fedorento Esmiúça os Sufrágios”? Para quem tiver chegado de Marte, esse era o nome de um programa diário de humor do grupo humorístico português Gato Fedorento transmitido na SIC em horário nobre. A estreia aconteceu no dia 14 de Setembro de 2009. Há 10 anos, portanto.

Na altura, a ideia do grupo de humoristas foi caricaturar as eleições legislativas que se realizaram em Portugal no dia 27 de Setembro de 2009 e, por arrasto, as autárquicas, no dia 11 de Outubro do mesmo ano. O programa, de aproximadamente 25 minutos, foi inspirado no norte-americano “Daily Show” (eu não disse que já estava tudo inventado e bastava ir burilando as arestas para chegar a um resultado melhor?) e feito em directo, tendo terminado em 23 de Outubro de 2009. Todos os dias foi convidado e entrevistado um concorrente a estas eleições (tal como agora…), como José Sócrates e Manuela Ferreira Leite e também outros políticos, como Marcelo Rebelo de Sousa, Manuel Alegre, Maria José Nogueira Pinto, Joana Amaral Dias, Nuno Melo e Manuel Pinho, entre outros.

A circunstância de não haver Gato Fedorento na sua totalidade (muito ocasionalmente surgem Miguel Góis ou José Diogo Quintela a fazerem uma perninha) e de o “GQNSE” continuar a ser divertidíssimo e um êxito de audiências, na minha opinião só se fica a dever ao talento de Ricardo Araújo Pereira. Com uma (outra) equipa, naturalmente. O que se confirma no “Governo Sombra”, onde ele não faz sombra a ninguém em termos de comentário político, sobretudo a Pedro Mexia, a não ser que faça descambar os seus comentários para o humor, o que geralmente acontece. E ele próprio o reconhece, dizendo muitas vezes “eu não percebo nada de nada” o que, não sendo inteiramente verdade e parecendo modéstia, passa principalmente por graçola.

Muitas vezes paro o que estou a ver noutro canal para acompanhar o programa “GQNSE”, o que levanta protestos aqui em casa: “Como se não pudesses depois voltar atrás para ver o programa… Não sabes como funcionam as boxes?” Eu lá saber, sei: mas tenho para mim que, em termos de corridas de Fórmula 1 e de programas de Ricardo Araújo Pereira, o melhor é não confiar em máquinas… Com a Ferrari e RAP não se brinca.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Não fica bem, neste caso das escutas do Governo à Presidência da República, Cavaco Silva – para quem muitos pedem a resignação – e que insiste em manter-se em silêncio até depois das eleições, como se não tivesse já causado estragos suficientes. Quem também não fica bem no retrato é José Manuel Fernandes, director do jornal Público, que fez manchete deste imbróglio… com ano e meio de atraso. Será por ir deixar o Público para ser assessor de Cavaco Silva? “Já se percebeu na telenovela mexicana em que se transformou toda esta história de escutas que afinal não eram escutas, era o caso de um tal assessor que se tinha sentado numa mesa errada há meio ano”, como dizia Francisco Louçã.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4274 de 27 de setembro de 2019

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